sábado, janeiro 20, 2007
A mãe entregara o novo brinquedo ao filho. Ela sorria pela felicidade da criança, e ficava contente ao vê-lo brincar, mas já sabia que aquilo era também o prelúdio de alguma nova tristeza, pois não há brinquedo do qual não se enjoe e não há infância que não se acabe. Então ela ficou ali parada um pouco, olhando seu filho brincar. E bom, assim como era com os amigos, especialmente para os homens.
Aquele brinquedo velho hoje está jogado, quebrado e esquecido na casa de uma empregada, e o menino tem quatorze anos, uma idade difícil. Ele sempre fora uma criança normal, do tipo que sabe intuitivamente como só as crianças sabem e que se esquecera disso conforme crescia, que a escola não está ali para que se aprenda nada que não o convívio com os outros. Passava os dias a experimentar o doce gosto de ser criança e ser feliz a brincar, e o azedume de já ser só um pouquinho adulto, e conhecer ao estudo de coisas inúteis, que não lhe serviam de nada, à não ser como desculpa para ir ser feliz novamente, no dia seguinte. E cedo, começou a descobrir o que era ser homem.
Para eles talvez não fosse nada, mas é engraçado, os pais não terminam de nascer seus filhos no parto. No parto eles ainda são quase amorfos, e não sabem ainda que sentir prazer é ruim e que dor é bom, e que como todo adulto, a criança deverá vir a algum dia bater no peito e se inchar de orgulho por sua vida ser cheia daquilo que não quer. De fato, o corpo daquele menino não crescera, inchara, inchara como que uma ferida purulenta que feria à essência infantil que não ousava jamais esvanecer, e assim nunca o faria, até a hora de sua morte, pois é numa desistência da infância que consiste o expirar. Mas essencialmente, o que esse menino não sabia quando nascera é que era homem, e nem o que homem e mulher era...
E assim sendo, os pais logo tratam de terminar de nascer seus filhos, ensinando-os que são meninas ou meninos, e assim aquele menino também aprendeu o que era ser homem. Não que a maioria dos homens saibam o que é ser homem, de fato, mas essa é uma daquelas coisas que nós sabemos não porque sabemos, mas sim uma daquelas coisas que desaparece depois que sabemos o que de fato ela é. E muito menos que os pais saibam, também, que ensinam seus filhos e filhas a serem o que acreditam que são.
Hoje esse menino de quatorze anos descobriu uma dor estranha, diferente daquelas que descobria quando seus amigos lhe batiam e neles ele batia de volta; mais parecida com aquela que sentia quando um dia quis brincar com as meninas e descobriu que aquilo era errado, e que nem elas jamais o deixariam entrar naquele mundo. E é também engraçado, que ele esquecera com o passar dos anos que sequer houvesse um mundo que as meninas que ainda também não sabiam muito bem o que era ser mulher haviam lhe negado entrada, e que desde então neste mundo ele nunca mais entrou, sendo desenvolvido longe dos olhos e dos ouvidos dos garotos. Hoje ele sentia uma dor meio triste, não tão forte quanto as que sem dúvida sentirá alguns anos mais tarde, mas envolvida numa tristeza pueril, meio inefável, meio intangível, ainda leve e infantil, que ele não conseguia exatamente disfarçar da vergonha e de um pequeno embaraço. Descobria hoje o que achava que era amor, e descobria também o não.
Não que estivesse muito errado no que descobria; o amor de nãos é que se faz, o amor de coisas proibidas é que se alimenta do coração dos homens. De coisas que ele não tem e nem pode pegar, não pode se aproximar ou tocar, vai sendo aos poucos consumado o amor entre ente e objeto, um sempre distante do outro, e talvez anos mais tarde, ele acreditasse que essa distância é o que de fato o amor é. E o amor para essas pessoas era de fato uma distância, uma distância entre o que era o que queria ser, uma distância agradável e dolorosa, mas que diminuia e alargava, e a ele isso um dia seria agradável. Mas hoje seria apenas uma criança a conhecer o primeiro dos nãos.
E não que já não fosse muito homem: Ele conhecia a fundo a camaradagem e os segredos sórdidos que os homens contam entre si. As coisas proibidas que ardem no peito e os desejos que mesmo não podendo serem saciados são saciados de qualquer maneira. E o maior dos desejos de todos os homens, ele agora saberia assim como algum de seus amigos já sabiam, é aquele desejo por uma mulher.
Novamente era engraçado que pensasse assim, mas certamente o sabia no fundo de sua alma. E era um daqueles segredos elusivos, que ele guardaria pra si em maioria e só contaria o pouco que soubesse desse para os amigos. Sim, era sempre fascinante saber das coisas que se guardava de segredo consigo mesmo, e que não se sabia apenas para não poder contar pra ninguém nem para si, e esse era um dos tais segredos, que o que os homens mais desejavam desde que nasciam e conheciam o seio materno era uma mulher.
Não porque fosse algum obscuro segredo de algum livro psicanalítico, mas sim apenas um fato estranho da vida dos homens, assim como das mulheres. Os homens são seres tanto solitários quanto egoístas, pois aprendem logo que devem apenas saber seus segredos a si mesmos, para que não possam contá-los, pois se os soubessem não seriam mais homens, e essa é a maior das desonras, especialmente para um garoto de quatorze anos. E não que seja difícil entender isso, mas é que o amor é algo proibido, é uma distância, e todos os homens sabem, assim como as mulheres contam, que são feitos de amor, pois para se ser homem, como o triste menino já começava a saber, não se pode estar perto de si para conhecer seus segredos.
E é assim que a vida de um homem começa, com aquele primeiro não, que remonta a um não muito mais antigo, um que foi dito por uma menina que queria brincar com as amigas de casa de boneca e contar intimidades, enquanto os meninos tentavam se superar com seus carrinhos, e aquele não triste que um pai que queria que seu filho fosse homem lhe disse quando esse mesmo menino de quatorze anos de agora pediu uma boneca para brincar com suas amigas. Começa tudo aí, no que não se pode ser e o no que não se pode contar mas no fundo se sabe.
O homem, um ser feito dos nãos que lhe foram ditos e dessa distância que nele se remete a uma infinitude do que é, sabe desde o começo de sua vida que é um ser incompleto, um ser a quem falta algo, pois o homem perde todo o carinho que tem no momento que descobre que amor é distância, e que nenhum homem pode amar outro homem. É como se fosse um furto, um furto que descreve, aos poucos, que nenhum homem tem o que lhe é mais importante, e que aquela resposta que é tudo que ele deseja, guarda a sete chaves e sete léguas o homem de si mesmo, pois nenhum homem é dono de si, todos pertecem às mulheres que amam, e hão de amar mulheres, pois ser homem é isso, é amar a algo e perder a si mesmo numa distância infinda, e nisso, ser homem é ser amor.
Ser homem era eternamente ser triste, também. Mas não saberia disso, pois como não sabia, esse era um segredo que guardaria até de si. Ser homem era não ser dono do próprio si. E com todo o princípio dessa confusão em sua cabeça, tornou aos amigos para brincar de alguma brincadeira, mas que tristemente ele já sabia, que homem algum poderia completar seu vazio.
Brasília, 15/12/2006
Arcueid Brunestud, 10:22 AM
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