segunda-feira, outubro 18, 2004

      Eu acordei naquele dia no embalo do cinza, na escuridão dos meus olhos verdes velados, que não podiam enxergar adentro da própria escuridão. Eu sabia, o mundo continuava, como sempre fizera e suponho que sempre fará, o todo inimportante sempre acima do descanso e do dia parado que realmente me importa... O tique-taque do relógio, a neblina nas brumas, tudo se embolava no tempo, como que sendo arrastados por uma força intangível que insistia em seguir seu caminho, a despeito de toda a vida em frente...
      Na janela, as nuvens peregrinavam os céus, sempre carregadas das histórias de seres efêmeros e da matéria inquieta de emoções enviadas por pessoas distantes, que rogavam seus segredos aos céus... As nuvens ouviam atentas, e levavam esses segredos a outras pessoas, que os ouviriam em suas almas numa manhã como essa...
      E eu, em minha janela, sabia que na distância, talvez alguém se sentisse como eu, em minha fantasia de que entre os sentimentos houvesse uma simetria, quem sabe talvez no continente dos sonhos realizados, onde a vida se confunde com uma eterna utopia de onírismos desvairados e incontidos, tamanho o delírio dos náufragos que nesse lugar acabam, agora que sabiam que seus sonhos seriam realizados... Em cada naufrágio, um sonho realizado...
      Será que na distância, havia alguém como eu, perdido em manhãs cinzentas, onde o coração palpita no ritmo de choro da fina garoa que insiste em cair sem parar...? O mundo passava pela janela, as ondas alcançavam o mar, e eu a lugar algum chegava, esperando o dia onde finalmente as nuvens passassem, para levar a alguém num horizonte longínqüo o que eu sentia... O mundo se desfazia em névoa e o céu roxo do cinzento e natimorto nascer do sol... E eu esperava por um ensolarado amanhecer...

Brasília, 07/11/2004

Arcueid Brunestud, 1:22 PM



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