sábado, julho 31, 2004

     Ostentação. Retirava aquele estranho aparato de carne de seu rosto, um fardo pesado de longos olhares inertes e moribundos, um atestado de que algo ainda havia. Sua proclamação de morte apenas lhe atestava uma vida pesada com cores cremes monolíticas que desafiavam toda a física, sua mera existência bem mais pesada do que a realidade deveria poder suportar. Mentira. Era apenas o pesar de um ser, e seres sempre são pequenos.
     Era um grito de vida por detrás de toda a pesada argamassa de carne, o cimento colágeno, o sorriso nati-morto que mais enojava e zombava do que dizia do que realmente dizia algo. Uma expressão âmbigua, que tanto deveria implorar a vida quanto deveria demonstrar um desdém por tudo que havia nesta experiência. Era barreira, alfândega, e era atestado de indigência. Era algo que passara a detestar em si mesmo.
     Por fim nu, em frente ao altar de pedra, clamou por antigos Deuses que não sabia ou sequer se importava se existiam, e enfim retirou um pouco do branco de seus olhos, uma pálpebra inteira, raspou suas sombracelhas, arrancou o dedo médio, retirou um rim, um pouco do fígado, e até um pulmão. Doia, muito. Colocou tudo no altar, e recitou as palavras que ecoavam a cada vez que fechara os olhos nos últimos 10 anos. Tudo se tornou uma mistura pastosa, que se derretia em cima de si mesmo, enquanto a dor que sentia passava e o sangue escorrido voltou para o corpo em breve completo tal como uma língua reptiliana talvez fizesse, ao voltar a sua boca. Ingeriu aquela gosma repugnante a violêntas mordidas. Dada a escolha entre a volta e a sua frente, por fim, cagou tudo aquilo num canto escuro, para que se tornasse fungo e se espalhasse pela terra em cada lufada de vento. Deu vinte e sete passos de distância, como sua lógica ordenou, e se entregou a problemas de ordem filosófica tal como o valor de PI, e nunca mais se moveu.

Arcueid Brunestud, 3:37 PM



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