sexta-feira, novembro 07, 2008

      E no caminho, haviam rosas, cujas pétalas murchas adornavam ao chão. Sentia-me como alguém que havia plantado algo, sentia-me como alguém que havia semeado cravos e agora colhia sangue, corte, arranhão e perfuração. Mas seriam os confis da pele a serem invadidos, a fortaleza impenetrável do si devassada e o milagre da comunhão a se dar em minha carne? Não, era a aspereza de uma pele que se fechava sob mim, como uma camada ríspida de algum tecido feito de farpas, cada poro feito de pixe, mais fechando do que se abrindo a respirar. Eu roubava o ar à minha volta; e não me embanhava nele.
      Assim como roubava presenças... Buscava nesse furto meu sequestro, como que a donzela apaixonada em fuga junto a seu salvador, correndo escadas espirais e fugindo de sua verduga sua sombra, desesperadamente pulando do topo de uma torre acima das nuvens rumo ao colchão dos céus e rumo ao consolo de sublimar-se de si própria nas rochas, apenas para estatelar-se ao chão e descobrir que apenas caiu, de volta em si mesma... E a dor era tanta quanta...
      A verdade é que não gostava de si mesma, e por isso se via fugindo... Como os seres amorfos que percorrem a terra a perder a forma, queria ela também deixar de ser ela, aquele emaranhado de espinhos que se sentia e cuja seiva atirada ao chão apenas semeava outras camadas de dores vindouras, ainda a nascer mas já sentidas no novelo de gato que se espalhava e se amarrava, grilhões que a prendiam e sufocavam, prendendo-na no ato de ser mas sem possibilidades de se libertar do próprio fardo, como se a pele atirasse seus tendões sobre a carne e a sufocasse. E dentro, esse esqueleto preso, movido e amarrado nas cordas que o sufocam, apenas mera marionete desta mão inquieta chamada dor...
      Sim... A vida lhe era pesada, embora vivendo fosse possível doer mais e menos. Nessas horas, queria ser levada pela mão para longe dessa pessoa com quem se viu todo dia, um si dolorido que esperava um resgate para longe dele próprio... Me deixa ser você, ainda que por meio de mim... Por favor, alguém rasgue minha pele...
      ...e me tire daqui...

Brasília, 07/11/2008, 08:58Pm

  - S...

Arcueid Brunestud, 8:58 PM



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