sábado, janeiro 27, 2007

      Quando você olha para o vaso... O vaso olha de volta para você. Não como um límpido e quase cristalino abismo de nada, amorfo, insubstancial, quintessencial, mas muito pelo contrario, como uma concreta prova de quão dejetória e excremental a vida se tornou.
      O abismo por si só é insondável em seu silêncio perene: Pesado, grave. Quando volto minha mira para as estrelas, compreendo, ainda que apenas vestigialmente, o peso da existência calada; como se muito além do que minha vista alcança, meu íntimo falasse à matéria negra que abunda no espaço e à substância pesada e silenciosa a qual preenche os cálculos dos cientistas em suas tentativas de representar ao peso do universo. Ha! Tolos... Se soubessem, notariam que o peso do universo e sua matéria escura, abissal, nos fala em nossos âmagos em todos os dias, como se apenas a nós e a ninguém mais sussurassem seus suspiros pesados, ou como se suspirassem suspiros diferentes a cada um de nós, como se ela fosse de fato a representação de quão mais pesado, insondável e envergante o universo existente tenha se tornado depois do indivíduo... Ou como se nós fossemos na verdade a fuga à realidade palpável de um peso intraduzível na existência física, que não podendo ser criado em partículas, quasares e anãs brancas, e humilhando até mesmo às inexpressáveis vastidões do peso das gotas mínimas de buraco negro, que são mais densas que puros continentes à balança, restou apenas escapar à matemática intangível das subjetividades humanas, que com suas montanhas sedimentares de singularidades, singelidades e levezas, se tornassem incomensuravelmente mais pesadas e densas que talvez o próprio universo. As contas não dão certo nunca porque nenhum cientista jamais pesou a subjetividade humana, ou a adicionou ao seu calcular. Transcende à escala e a possibilidade de mensura.
      E nesse ponto, nenhum abismo pode ser mais grave e imponente que o vaso, pois o vaso, em sua ironia e troça, também surpreende à aritmética e transcende a medição, no fato de que ele comporta e transmite toda a sensação da vastidão humana, pois quando eu olho ao vaso, este olha de volta para mim, com uma pecularidade elegante, e com uma força e resistência sem par tanto no vigor do aço quando na fragilidade elástica e sufocadoramente enleante, instransmissível e inquebrantável da teia de aranha, lhes corando e por fim fragmentando em nada e em vergonha e inveja, pois o vaso é mais robusto que qualquer um deles. Pois quando olho ao vaso e este olha de volta para mim, ele não apenas resiste ao peso da subjetividade humana, como a resiste e a apreende, pois este olha de volta para mim com meu rosto e olhar...
      Rosto maculado por manchas amarelas e corpos coprosos, numa jocosa e talvez fidedigna representação humana. O vaso, parente do foço, sem dúvida alguma é mais profundo do que o abismo. E muito mais sarcástico e cruel em suas mofa e zombo. Ele simboliza, representa, simula, e por fim se apodera, espelha, se apossa e se torna à semelhança da imensa e profunda decadência humana...

Brasília, 23/01/2007, 07:58Pm
1a Revisão: Brasília, 23/01/2007, 08:04Pm
2a Revisão: Brasília, 27/01/2007, 03:45Am
3a Revisão: Brasília, 27/01/2007, 01:51Pm

Arcueid Brunestud, 4:37 AM

Ps.: E não que muitos se dêem conta disso... Mas talvez esteja nesse ponto a real necessidade de utilizar um aparato higieno que nos reflete, ou a pressa com que o homem utiliza ao sanitário no banheiro: A última é para não se ver, e a primeira, é por completo a representação do desprezo que se tem por si.

Arcueid Brunestud, 4:36 AM



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