sábado, outubro 20, 2007

Joana

      Quando deixava de ser dia, e Joana sentava à tela do computador, Joana deixava de ser gente e virava letras. De fato, talvez nunca fosse gente, mas letras travestidas. A imensa torrente de sentimentos puros que lhe circulavam a mente, ia, aos poucos, tomando alguma forma, ainda que completamente inconsciente de tudo que se passava ao seu redor e até mesmo do que se passava dentro daquela abóboda negra que não permitia que nada a invadisse, mas sim que invadia aos dias incessante, incansável e implacável, sem entender como de fato aquele ser existia. Nem se existia ou o que era. Apenas... Fluia, por horas, sem controle, como a vida que às vezes escorria, não concretizada, de dentro de seu ventre. Joana era assim. Uma vida que não vingou a não ser em um triste fluido escarlate e transparente...
      E assim Joana passava seus dias incauta, branca e pálida como a lua, como que sem entender e por quê vivia ou morria, e lhe restavam os expurgos de uma vida potencial que jamais vinha a realmente ser. Os dias não corriam por ela, mas sim ela escorria pelos dias, de morna a cálida a tíbia, sempre tentando esconder ou entender. Joana era do tipo que observava às pessoas, do tipo que tentava lembrar da primeira memória que delas tinha, mas de fato não conseguia, não lembrava, via sempre as pessoas por um estranho olhar de familiaridade, como se eternamente lá tivessem estado, e isto soasse tão natural quando de fato não fosse, que achava que talvez as visse de antes, de outrora, de antes de que aqueles cílios pela primeira vez se encontrassem. Ou que por primeiro se separassem na ferida dos olhos, e só sobrasse a dor do talho que o mundo lhe fazia; os olhos eram uma mácula eterna. E ela, ao contrário dos outros, sabia que todo o resto era falso, os olhos sim é que verdadeiramente sangravam, o sangue não era branco nem vermelho, mas sim transparente e incolor, como uma essência desnítida que não dá tanto de si mesma fora a forma, com cor invisível e um tanto moldada, e é como a alma, cujo sangue tem a cor daquilo que vê, por onde resvala. A lágrima sim era o verdadeiro sangue, a lágrima sim era o sangue da alma. E no meio de suas feridas abertas, sempre embebidas nesse sangue melancólico e discreto (sim, nos olhos de todo mundo brilhava, incrível, o perene refulgir do sangue), Joana tentava se lembrar de onde vieram as pessoas, de onde vinham e como e por quê estavam, mas sem sucesso, apenas as aceitava, com seus brilhos escarlates translúcidos. Às vezes pensava que talvez apenas tenha esquecido o medo de as ver pela primeira vez junto com o medo de se ver naquela forma coesa e junta, dentro de um estranho saco de plástico impermeável de sensações, e às vezes pensava não que tivesse ali sempre existido, mas sim que não tenha sido e só não conseguisse lembrar, e assim como não lembrava nem achava a origem de tudo, seria apenas lógico se às vezes, tudo lhe deixasse, tudo lhe sumisse, tudo se desencaixasse, tudo deixasse de ser assim como nunca fora... O novelo embolado do nada deixasse de ser embaraçado e voltasse a ser linha reta, esticada mas não tensa, como que se os dias calmos de que lembrasse no fundo não existissem nem jamais no passado, irão existir... E tudo talvez voltasse a ser igual a nada... Tal como no fundo, Joana achava que realmente era...
      E assim passava Joana pelos dias, incauta e insegura, vendo os dias sempre como que a qualquer minuto seu passo fosse o último que viesse a dar, por pisar estranho num nó que ninguém vira, e tudo se desmanchasse, ou que alguém o fizesse com ela. Era como Joana via a si mesma, como um imenso embolado de fios de lã que tentava por si passar um pente fino, como que para esticar cada fibra e ver realmente de dentro para fora o que de fato era, ainda que soubesse que talvez isso fosse seu fim ou o fim de todo o mundo, pois Joana se via como um nó e um embolado enquanto aos outros não. No fundo, porém, achava que tudo que era eram esses fios cruzados, e que se fossem devidamente estirados, quem sabe aquela imensa confusão que era deixasse de ser... Pois no fundo, Joana achava-se um mundo confuso, e pensava que talvez essa confusão fosse tudo que o mundo representasse e fosse, pois se algum dia o pensamento se desatasse, talvez perdesse o fio da meada. E então, deixaria ela de pensar constantemente, pensaria vagamente, com o pensamento permeado de momentos de silêncio, e só quando solicitada. Isso lhe assustava, talvez mais do que nunca realmente se desembolar ao seu fundo, e talvez em essência já contemplasse esse silêncio e talvez até mesmo já o houvesse atingido por vez ou outra, mas tinha medo da claridade, pois nela e longe do escuro não via o tilintar impreciso de todas as coisas, nem precisava que lhe enfiassem um estilete na alma por meio das rachaduras que tinha em volta e no meio da íris... E apenas ficava calada, enxergando aos poucos aos fios misteriosos daquele mundo de fios emaranhados, flertando e tentando um tango com a efetiva morte...
      Às vezes, o trabalho lhe interrompia, ou ela interrompia ao trabalho... Ou às vezes as poucas paixões e amigos de verdade lhe tiravam de sua auto-vivissecação... E quando tirava o estilete da carne, agora com suas fibras separadas, tinha vontade de ser morte a quem interrompia ao seu apoteótico e demiúrgico ímpeto de criar a si mesma, mas comia sua ânsia por dar valor demais àqueles à sua volta. Nunca se perdoaria se algo os acontecesse, partindo de si. Mas queria, só um pouco, às vezes, que soubessem de sua injusta raiva, e que talvez cuidassem dela em seu indevido e imerecido desejo de mimo...
      O trabalho era diferente, porém... Joana era silêncio perene, como que fosse um mundo pequeno a tentar se endireitar, e o trabalho lhe doia, lhe interrompia. Não achava-o justo, não achava-o sacro. Era como que uma pequena outra dobra em toda sua trama, e aqueles fios tortos nunca mais se endireitavam, não sem muito esforço, e sabia que o si não era o agora, mas sim um imenso somatório de todo antes. Era como se olhasse no espelho e achasse estranho, pois não entendia como os outros se vissem como aquilo, como apenas um ponto ou o último fio da meada, não enxergavam todo o resto, não viam o mundo como um todo, eram como seres mutilados e Joana então batia as asas dos olhos, e voltava ao passado, e via no espelho a pele mortificada de sua trama pequena, perpassada por flechas, escudos, lanças e penas, encrustada como uma linda jóia com milhões de adagas, e Joana gritava, gritava do fundo da alma e até do sopro do coração, mas o grito morria calado em sua miúda garganta, e ficava paralisada, na frente do espelho, tentando esconder as feridas nas dobras das pequenas mãos, como que em estado de choque, mas não conseguia, e ficava parada de olhos abertos, incapaz de mover um músculo, e o salgado doce sangue translúcido escorria aos poucos dos rombos de suas feridas...
      Joana não era gente, era uma máquina, como um fino relógio suíço de corda, dos que não eram a pilha. Era uma pessoa como há muito não se faziam mais pessoas, era uma pequena grande reminiscência, dos dias que ainda se fazia gente e não máquina, e era cheia desses mecanismoszinhos pequenos, cheios de molas e espirais de corda, e se atrasava, parava, às vezes dava grandes defeitos e sufocava, engasgando nos dentes quebrados de suas engrenagens delgadas e no óleo que lhes ajudava a fluir. Passava dias no ócio, calada e sem dizer nada, ao contrário dos tantos que calam e ainda falam pelos cotovelos, e deixava os ponteiros pararem, deixava o tempo lhe fincar adagas e cravos, enquanto não batia suas asas e caia fora de sua cadência, e lentamente via na força de suas frágeis engrenagens estas se estalando e mastigando e por fim quebrando, como um mecanismo que estoura por ser como rio e panela de pressão, e em suas voltas paradas não ter mais para onde ir. E Joana ficava nos fundos do quarto cinza e frio, desnuda com excessão de uma camisa social de malha cinza, que lhe cobria ao fino corpo, deixando os tênues seios como nuâncias de provas do relevo macio de seu pequeno ser, e deixava os olhos abertos no escuro, sentindo à máquina emperrada lhe queimando no fundo da alma, e se deixava, aos poucos, sangrar...
      ...como uma vida que nunca era... Como uma vida em potencial, que atingido o ápice da lua cheia e o prenhe estrondo da orquestra, retornava a em silêncio no céu minguar. Enquanto Joana abraçava suas pernas, delas no chão, corria o vermelho...
      Joana, muito embora menos gente do que um fino mecanismo, contrariando a todas as expectativas, um dia se apaixonou. E achava aquela sensação engraçada, achava aqueles calores e calmas coisas estranhas, uma hora gelava outrora queimava, e Joana, que era o silêncio, às vezes tinha vontade de gritar. Às vezes de desespero, outras vezes de desejo, às vezes por coisa alguma, e até para o seu medo, de felicidade, como se o bater das asas dos olhos (onde estavam as bases de suas feridas, onde o deus que não existia a rasgou ao ser nascida, como se o parto não terminasse antes de um pequeno e atroz assassinato), às vezes, realmente a fizesse voar por campos de rosas, laranjas claros, singelos lilases, discretos vermelhos e tímidos amarelos, doces em cor e mornos em intensidade, na predominância de pueris lilases e rosas e laranjas plásticos, que quase flutuavam e por onde Joana transcorria e transbordava, meio que num êxtase desconhecido ou esquecido, flutuando, flutuando, um voar que não interessava quantas vezes vivesse, jamais dele lembrava. Joana sabia que sua vida era inquieta, pois queria na verdade achar a essência da fonte da dor, a própria nascente de onde as lágrimas e o sangue da alma resvalavam, e para isso teria de seguir a vida no rebuliço mecânico de quem sentia suas engrenagens emperrando, mas mesmo assim achava estranho, pois não era mais a única engrenagem a em seu peito e maquinário preciso rodar. Às vezes tinha vontade até de dissolver o ferro em carne, e quem sabe, mesmo sem saber de tudo, virar rio, e bem sabia que os rios correm para o mar. Não sabia onde ou o quê o mar era, mas pensava em correr com alguém...
      E Joana tentava aos poucos compreender como suas delicadas, finas, garbosas e elegantes, porém frágeis e quebradiças engrenagens, espirais e molas de seu mecanismo, seriam se corressem acompanhadas. Naqueles dias, Joana, que insatisfeita queria saber, conhecer e controlar a tudo, olhava o mundo com olhos desnudos e incautos, e ficava perplexa com o tamanho do seu não-conhecer... E mesmo sem suas manias, tentava, aos poucos, deixar de ser máquina e apenas... Respirar. E inspirava... E exalava... E às vezes achava que não tinha controle sobre o ar. E ficava espantada.
      Joana aos poucos sentia-se receosa, perdida nas voltas de sua máquina. E lembrava que assim como o tudo viera do nada, talvez, por nenhum motivo aparente, aquele sentimento torturante e gostoso pudesse para o nada voltar. E nesses dias laranjas de fim de tarde, pela rua vazia, botava, silenciosamente, a mão no peito e a prensava contra aquela ferida, por detrás do dorso, a ferida que já nasce feita e é por isso que lá há osso, para prevenir o toque, o cutucar, e tentava consolar aquela dor no seu peito, de cores receosas querendo misturar-se. Nesses dias, Joana, que bem sabia de tudo, tinha medo de pensar...


Dedicado a srta. Naiara, pela inspiração, colo e conversa. Nossas cores misturar-se-ão.

Brasília, 23/05/2007, 03:09Am
1a Revisão: Brasília, 23/05/2007, 09:15Am
2a Revisão: Brasília, 23/05/2007, 06:26Pm
3a Revisão: Brasília, 23/05/2007, 07:14Pm
4a Revisão: Brasília, 23/05/2007, 07:49Pm
5a Revisão: Brasília, 24/05/2007, 06:22Am
6a Revisão: Brasília, 24/05/2007, 05:56Pm
7a Revisão: Brasília, 25/05/2007, 01:02Pm
8a Revisão: Brasília, 30/05/2007, 07:30Pm

Arcueid Brunestud, 10:32 PM



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