sábado, agosto 15, 2009

      Todos os dias eram ruins, e isso para mim era um fato consumado; não havia um dia sequer que alguma coisa em mim não quisesse ceder ou simplesmente se esparramar e perder sua forma, sua tensão, sua tensão superficial, para que eu parasse de me esmurrar contra o espelho dágua sempre que via a minha imagem, apenas para descobrir que não só me partia todo ao me jogar de um despenhadeiro contra o corpo líquido, como também descobria que após me esmurrar contra minha própria imagem, a única coisa passível de fazer era simplesmente afundar naquilo, não desfeito, mas apenas estraçalhado, sentindo-me como um amontoado de pilhas de nada, mas também como que sufocado naquilo que via, traduzido agora em parte da essência que antes, apenas distante me assolava, mas agora me envolvia de forma asfixiante. Sentia-me preso.
      Aquele dia em especial era péssimo, pura e simplesmente, porém. A impressão que tinha é que dessa vez o espelho, não apenas contente em me sufocar pós minha tentativa de quebrar com aquilo que via, também se sentia no direito de se apresentar perante mim e me jogar contra a parede e beijar-me, num beijo maldito que ao invés de me dar algo, algo de mim tirava, como que eu sorvesse aquele resquício umbrático qualquer ao invés de ar, e logo me visse preso dentro do que respirava. Tinha dificuldade de respirar, por sinal; sentia alguma coisa, como que me esburacando o peito, uma dor qualquer, inexata e irreal, pela intangibilidade, e um desejo esquisito de que dessa vez eu me engasgasse em mim mesmo de vez, e quem sabe acabasse morto depois de umas vinte ou trinta tossidelas e algumas pigareadas, após provar um pouco do meu próprio remédio: eu mesmo.
      O dia ia seguindo, e conforme minha sombra se alongava sobre o chão, sentia na verdade que quem restava de sombra era eu, como se a imagem refletida sim fosse alguma coisa e eu uma mera sobra, algum resquício de coisa não-dita ou feita em excesso, como um resto de cigarro que decidiu se fumar. Sentia que precisava e logo sair dali. Decidi ir ao lugar de sempre, na hora marcada do ponto maior do vazio e da angústia: o café 27.

      Cheguei lá às duas em ponto, depois de amargar um pouco da dieta de ter que me tragar por tempo demais, e sinceramente, era intragável me ver preso dentro daquela teia de carne amarrada por vasos sangüíneos e presa numa rede de tendões. Eu me mexia aos poucos como que confuso, esperando encontrar algo que nem sabia ao certo o que era. Sim, sabia sim. Queria o de sempre: um pouco de compreensão de quem talvez já fez mais do que devia e viveu pra contar a história. Acho que sempre que tive a sensação de fraternidade, ela era um tanto fugaz pois talvez eu soubesse que, idiotas como fossem meus pecados, era eu quem os tinha que agüentar. Talvez aquela sensação dolorida de algo dentro de si martelando num ritmo certo uma agulha contra as batidas do coração fosse algo conhecido por ali, e no fundo, acho que algo que permeava o lugar era a cumplicidade pelos excessos, algo que ali todo mundo havia já feito e se arrependido no dia seguinte, ainda com o gosto da amargura ou da doçura de seja lá qual ímpeto os arrebatou. Era um lugar de silêncio. Ou pelo menos de melodias pesadas. Era tudo o que eu queria.
      Joguei-me contra uma poltrona coletiva larga, enquanto esperava ser servido por alguém, de preferência alguma coisa cara e abrasiva, do tipo que corta, queima e cauteriza ao mesmo tempo, fazendo do corte alguma coisa meramente figurativa. Queria no fundo cortar a mim mesmo fora, e talvez fosse justamente o problema. Um gole era pra lembrar, e o outro pra esquecer de tudo que foi lembrado, mas apenas o diabo sabe do que lembrar-se-á aquele que se aventurar nas profundezas abissais de um copo de destilado forte. Eu não lembrava de nada daquilo que lembrei; acho que era demais saber de tudo que encontrava no fim da garrafa. No fundo, o álcool era como uma espécie de conhecimento puro, algum tipo de onisciência: Quando está na garrafa, ela de tudo sabe e nada diz por nada poder dizer; quando se enche com a bebida, há de tudo se saber, e nada há de lembrar, pois o ser humano não consegue comportar tamanho conhecimento de si e de tudo em volta, e também pelo ser humano ser nada mais do que algo que adia um fim inexorável, o de desfazer-se. Um humano se desfaz aos poucos, enquanto vai perdendo um tico de si a cada respirada que passa... No fundo, essa é a explicação do porquê das pessoas se comportarem como deuses um tanto mimados enquanto bebem de suas garrafas: Porque de fato o são, ainda que por algum período no tempo-espaço. Permitir-se inundar de álcool é como um estado de comunhão, enquanto o eu some e o todo transborda e transparece.
      Por isso, eu nunca ousava me julgar após atingir a ebriedade, pois no fundo sabia muito bem que as ações divinas não são compreensíveis perante a esfera mortal; essa, marcada nitidamente pela impossibilidade e cercada de limitações, carcomida pela necessidade masoquista de agradar aos outros com sua flagelação, com sua natureza autofágica e suas doenças auto-imunes, com seus olhos que olham para si mesmos e enxergam a si como uma doença, não é capaz de entender que se permitiu ao tudo.
      Ou for fim, era o que eu me dizia, enquanto sorvia um outro gole de bebida, e me preparava a uma viagem sem volta pelas próprias 10 horas....

fim.

Brasília, 15/08/2009, 02:43Am

Arcueid Brunestud, 2:43 AM


quinta-feira, agosto 13, 2009

      Eram uma e meia da manhã, e eu, me sentindo como que minha cabeça se afogava no redemoinho da espátula que mexia o gin e o martini, não por estar bêbado já (era o primeiro copo da noite), mas porque poderia dizer que minhas idéias iam aos poucos me inundando e criando uma espécie de entorcimento diferente, no qual eu não sentia nada por sentir algum barulho de fundo estranho na minha cabeça, ao invés da euforia da bebida, tomei a decisão de ir visitar o bar onde aquela menina da cinta-liga trabalhava. Era um pouco tarde, mas a maior parte da clientela eram os insômanos muito mais desligados do mundo da labuta, fosse por orgulho, fosse por privilégio, ou fosse justamente por desemprego, do que qualquer outra coisa, então eu sem dúvida me sentiria em casa. Tratei de pegar a moto e ligá-la rápido. O porteiro não ligava, já estava acostumado a me ver de noite. O porteiro do dia, se me visse saindo do estacionamento, provavelmente chamaria a polícia.
      Eram uma e quarenta e cinco quando cheguei. O ambiente era esfumaçado, e algum convidado da noite cantava em cima do piano como uma diva decandente, ainda que com uma camisa social semi desabotoada, e a menina do piano parecesse tocar bem mas desinteressada. O piano lamentava alguma coisa, e uma voz torpe seguia. Restava saber afogado no quê esse aí estava. A música era boa, leve, quase uma manifestação eólica da fumaça que se espalhava ao pouco pelo bar. As luzes parcas incitavam uma penumbra, e o estralo de uma bola de bilhar era seguido pelo clique da aba de metal da caçapa. Eu olhava com uma cara de tédio e segui para um lugar no balcão, procurando algum livro o qual olhar enquanto aguardava meu drink.
      Caroline me olhou de longe, e enrolou pra me atender como sempre, pois gostava de se demorar um pouco enquanto ia me servindo alguma coisa. Pra variar eu lia alguma putaria iluminista, e só não arranquei a página do livro pra enrolar um cigarro de palha porque não fumo, embora já tenha feito isso quando estava realmente irritado, e porque eu gostava daquele livro, embora já tenha arrancado páginas de vários outros. Pollyana era uma vítima favorita. Colocaram algumas páginas falsas naquele livro. Havia uma aposta de quando haveriam de arrancar todas elas. De qualquer maneira, eu fiquei em meu lugar, e como era costume, Caroline me pagou uma bebida, meio que esbravejando, dizendo, Se continuar a te ver aqui, acho que logo vou estar pagando pra trabalhar. Eu dei de ombros, disse que se ela gostasse daquilo, que poderia até fazê-lo. Paguei a ela uma bebida e começamos a conversar, enquanto ela tirava um tabuleiro de xadrez da gaveta. Nessa altura do campeonato, o bêbado do piano já errava a maioria das notas e a moça da partitura já havia ligado o piano automático, e dormia a generosos roncos, dignos de um verdadeiro ogro, pruma moça tão magra, embaixo do piano. Começava a fazer festa esperando que ele decidisse parar de cantar. Caroline e eu conversávamos.
      Naquela noite, falamos um pouco sobre identidade. Entre um drink e outro, ela servia algum bêbado qualquer que não conseguisse mais chegar no balcão, ou que não fosse confiável o bastante para marcar a própria bebida. Os que não chegavam ao balcão se amontoavam como crianças num sofá, e os segundos eram raros e logo expulsos, o que dava para nós dois bastante tempo. Caroline abriu com a siciliana, e eu comecei tirando os dois cavalos. Mas o que tem a identidade, ela disse... Eu falei que tinha tudo haver com o jardim de Pardis. O quê? Xeque, ela disse. Porra, Line, jogar esse bispo aí é besteira, você tá só pedindo pra que perde-lô a troco de um peão, Ah, foda-se, eu quero mesmo é cantar hoje, e responde minha pergunta. Bispo no saco, ela faz uma cara de esperta, e eu respondo, Bom, acho que tudo começa naquela parte onde uma pessoa se torna separada do todo de si, das percepções, Não, caralho, o jardim de Pardis, pára de beber e fala, vai... Ok, ok, o jardim de Pardis... Bom, a palavra paraíso tem origem nessa, Hm, é persa, e era um Jardim, e era daí que saiam as imagens de paraíso, Ahhh, tá... Então você acha que paraíso é a unidade de si? É, por aí, Xeque, Hehehehe, acho que você perdeu essa rainha, Ahn, como assi, ah, ok, mas eu acho que alguma coisa fratura a pessoa quando ela começa a desenvolver personalidade, e a personalidade na verdade é a tentativa dela de lidar com as pressões de lidar com a dor original disso... Hmmmm... como tentar lidar com as pressões de querer acabar com a própria dor e ter que lidar com ela? Bom, acho que resumidamente é isso, ops, você jogou aí mesmo? Joguei, e pára de encher e joga, Bom, é por aí, eu acho, a personalidade nada mais é que um construto baseado da dilaceração entre o todo pessoal e o resultado das demais forças presentes no mundo, ei, que cê tá fazendo, ah, esquece o jogo, vai, vem dançar comigo, essa é uma boa conclusão, Heheheheheh...
      Ficamos dançando um pouco. Tocava música lenta, e nós dois, bêbados como estávamos, parecíamos um disco em tempo trocado, o acompanhamento lento e duas pessoas dançando como loucas uma música que lá não havia. Alguns dos bêbados se animavam e bebiam alguma coisa por conta da casa, dando alguns brados de alegria, outros se atreviam a dançar com a própria gravidade e o movimento do transladar, algumas pessoas caiam em pares, alguns se divertiam como davam... A alegria parecia mórbida, considerando o clima pesado.
      A música mudava, seja para mim, ou fosse para Line, e fiçavamos dançando um caído em cima do outro, como que só de pé se sustentando. Ela falou para eu cair para frente que ela faria o mesmo, e milagrosamente o arranjo funcionava. Eu perguntei, com a voz aos tropeços... Line... Qual foi a sua primeira dor...? A minha, ela disse, mais arrastadamente ainda... Acho que a minha foi a de não ser vista... Ah, eu respondi, acho que te entendo. A minha foi a de não poder tocar em algo... Tudo bem, vai... Toca aqui... E ela me deu um seio a apalpar. Eu fiquei um pouco corado, e olhei pra ela com uma cara esquisita... Ela me olhou com um olhar de sapeca, e disse, aproveita enquanto pode, amanhã não vou gostar disso... Eu disse pra ela que nem eu, e fiz carinho entre os dois montes... Ela me olhou cabisbaixa e disse... Por que certos homens insistem em serem legais quando até nós não passamos de porcas...? Eu respondi com uma expressão amarga, dizendo, Vai ver é porque você é uma porca mesmo que eu sou legal... E continuamos a marcar o compasso de uma música lenta, meio que sorvidos num mar de luz azul estroboscópica, um para cá e outro para cá, outro para lá e um para cá...
      Acordei eram 10 da manhã, e Caroline já havia ido embora... O sofá parecia limpo, o que sem dúvida significava que a chave do bar estava no meu bolso. A camisa suja de vômito não deixava muitos indícios quanto a quem fez o quê. Fui ao balcão, e achei a minha conta da noite paga. Sifû, a mocréia podia ao menos me deixar pagar de vez em quando. Tomei um drink por minha conta, deixei o dinheiro no copo, ao lado da garrafa, bebi um pouco de água da pia, pra ver se aliava a ressaca. No caminho de volta, deixaria a chave num envolope dentro da caixa de correio de Line. Fiz um movimento no tabuleiro, e rezei para dessa vez terminarmos o jogo antes de quatro sessões, e tratei de ir pra casa, conhecer a cara do porteiro do dia...

Brasília, 13/08/2009, 05:54Am

Arcueid Brunestud, 5:54 AM


terça-feira, agosto 11, 2009

      E era como que algo que vagava ao contrário no fluxo da corrente sangüínea, pois a cada passo que dava e a cada lhufada de ar que sorvia, sentia como que alguma coisa corresse em mim contra a vida, no sentido oposto de mim mesmo, que talvez invadisse e que talvez, aos poucos, me tomasse. Com o passar do tempo, sentia que aos poucos alguma coisa em mim ia parando, a vida se extingüindo lentamente conforme o movimento inverso daquele dela ia ganhando mais força, até o ponto em que o sangue estagnava nas veios e o coração parava, lentamento tornando-se num mero objeto de relicário, uma lembrança dos dias passados. A pele logo tomava um aspecto pétreo, como que um antigo vale onde alguém ou alguma coisa se abrigou do inverno buscando pelos jardins de Pardis, e no fundo, apenas encontrou o resfriar típico da vida, que começa quente e aos poucos vai se perdendo aos confortos hibernais do não estar, na algidez dos dias frios que aos poucos foram tomando conta da terra. Nos olhos, duas límpidas lagoas de outrora aos poucos estagnavam e tomavam dolorosos aspectos de pântanos, como que gritando que ali alguma coisa parada e fincada maculava tudo em volta, a putrefação o único caminho viável à vida que foi perdendo seu ritmo.
      Um dia, como que por milagre, algo rompeu a tensão superficial da então nada delicada camada daquele espelho, que refletia muito bem a imagem na qual fora mirado. Como que o óleo que apodrece as águas do trânsito cotidiano, formou-se aquarela, e da tinta escorrendo por entre os vincos da íris, talvez ele tivesse notado que havia ainda algo dentro de si... Talvez, não digo belo, mas ao menos sincero, e eis que deixou-se levar pela contra-corrente, não mais lutando para nadar para lado algum, mas apenas se entregando àquilo que dentro de si sentia... E aos poucos, o corpo em redemoinho recolheu-se a aconchegou-se, deixando-se levar e escorrer, resvalar, de volta à posição em que viera ao mundo, ligado a sua origem no ponto em que o líquido amniótico tinha gosto de sangue... Hoje também nascia, mas de dentro para fora, num corpo já em si preso, afogado em tudo que sentira até aquele momento. Por fim... Deixou-se abater.
      Se aquele mundo fosse o fim de guerra, ele sem dúvida se via como que o mero soldado que se entrega plenamente aos ferimentos e cai, como se no fundo a morte fosse uma benção. Passou-se uma mão sobre seus braços, sobre seu tronco, fronte e cabelos, como que se dando conta ainda da integridade física, que caçoava da auto-imagem distorcida de um homem mutilado. Por fim, deu-se a morte daquele corpo, para que com, amparado nas possibilidades de um futuro que ainda não veio, simplesmente pudesse renascer. E aos poucos, o titubear do frenesi do coração disparado cessava, achando conforto no mero repousar. Deixava de fazer esforço, os capilares e veias se rompendo, como que a integridade incomodasse ao corpo que de hora em hora requeria algo, que de segundo em segundo inspirava e batia as palpebras como que buscando elevação da carne de um plano terreno. Morreu desfeito, esfacelou-se em mil pedaços e se transbordando pelo chão, mas plenamente feliz. A quem lhe segurava, sobraram-se as manchas de sangue, que a pessoa se perguntou se manchariam sua roupa, ou não...

Brasília, 11/08/2009, 04:46Am

Arcueid Brunestud, 4:46 AM



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