quinta-feira, maio 24, 2007

      À noite, sempre na mesma mesa, sentava o velho viúvo e a cortesã de sua preferência para a noite. Lá, eles sentavam, degustavam algumas bebidas da escolha e preferência de ambos, antes de enfim se retirem para aposentos onde pudessem ficar mais à vontade, e se indulgirem em alguma volúpia privada, a delas sempre referente ao tato extasiado com a generosidade bem conhecida daquele homem, e a dele a de saber que traia sua amada esposa. Ao cantar do galo, sentava-se ele à sua mesa, acompanhado apenas de um ou outro olhar inquisitivo e embebido em moralismo e da ressaca de seus deboches, que pareciam mais pesar a ele do que se tivesse consumido todo o vinho de uma adega. Eu sempre olhava aquele homem com uma curiosidade e admiração velada, enquanto enxugava os últimos copos das doses servidas, entre elas invariavelmente umas duas de whisky que ele bebia. As prostitutas loiras do bordel de meu pai sempre atraiam ao velho estrangeiro, de cabelos rubros e tristes olhos azuis que se enegreciam toda manhã em seu luto e luta para jamais esquecer a mulher. Seus olhos azuis eram negros, como se entoassem uma eterna nênia à falecida consorte, e como se estivessem mortificados e amortalhados, num traje fúnebre de eterna homenagem e blasfêmia ao ser que amou. A ela ofendia por sempre se culpar por ter sobrevivido ao acidente no barco, eu imaginava, e por desejar que ela tornasse-se sua eterna verduga em algum dos confins do inferno, talvez merecendo atenções de Cérbero.
      Ele sempre pedia às prostitutas a quem pagava para chamá-las de Adala. Eu admirava sua determinação em ser fiel em toda sua malícia, traição e tortura. E sempre me culpava, por ter nascido morena...

Brasília, 20/10/2006, hora desconhecida

Arcueid Brunestud, 8:46 AM



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