sexta-feira, agosto 20, 2004

     As coisas não deveriam ter peso. Ele se sentia assim a cada novo amanhecer ao lado dela. Cada dia bonito, cada sorriso... O próprio sorriso que antes lhe vinha sozinho agora precisava de grandes andáimes e guindastes, já nada mais poderia subí-lo. Outra tarde de verão, onde a própria atmosfera ficava mais grossa e densa do que deveria ser. Talvez devesse cortar um bloco de ar para pendurar na parede...
     Os dias nunca tiveram o costume de serem felizes, e acha ele que nunca serão... Ó tolos humanos, que com seus hábitos e seus modos, sua segurança e seus amigos, esperam um dia parar a felicidade, e torná-la algo estático em suas vidas... A vida não para, e muito menos pararia alguma felicidade, elas sempre transeuntes inquietas... As peregrinas que puxam a caravana dos farrapos, diria... Só ficam os ecos dela, na distância, e no horizonte. Alguma filósofa new age good vibrations diria que nunca somos felizes por que nunca colocamos a felicidade onde estamos... Eu diria diferente, provavelmente diria nunca estaria onde chegamos, isso por que não estamos falando dos gregos e seus deuses antropomorfisados. O mundo adora senhorita Felicidade? Não seria uma Senhora, ela flerta com tantos e dispensa tantos mais... Sim, acho que deve ser Senhora... Uma amante e infíel e voluptuosa, dona de busto opulento e longas pernas alvas, que só transparecem a lubricidade daquele ser por detrás das roupas que gritam em outros o desejo; sempre na idade correta para atiçar as vistas, olhos inquietos, vistas transbordando de gana e desejo, e o sorriso de cada sonho... Coberta de encanto e fascínio, que flerta com todos sem pudores, no fim deixando a homens e mulheres loucos e loucas de desejo por tê-la e prendê-la, em suas pernas e em seus lábios, em seus braços e em suas vidas. Tolos realmente somos, a vida não para, nem a Deusa patrona da humanidade, a infiél e voluntariosa Senhora Felicidade não para nem parará, este ser prenho de desejo e afogado em vazio, que tudo em que toca e consegue logo se torna nada. E aqui estou, com o nada que amo, ao lado meu...
     Os dias são cruéis, sem dúvida. A mácula do tempo não poupa a nada nem a ninguém, e muito menos deixaria de corroer o valor da pessoa ao meu lado... O toque tenebroso da felicidade é inevitável. Os físicos estão errados, o nada tem peso, e é mais pesado do que a matéria da qual é feito o corpo humano. O corpo humano não foi feito pra aguentar isso. E não aguenta, fica na iminência eterna de se partir, e por algum desígnio estranho da anatomia, não se rasga por pequenos fios, que unem de um lado a outro uma casca, querendo se livrar de tudo que está lhe rasgando. Esse vazio é demais para um ser aguentar por mais um dia que seja, tem que acabar logo. Precisa acabar logo...
     Eu fico a observá-la debaixo dos lençois brancos, sob a luz duma manhã ensolarada. Por que tu foste, meu bem? Os dias tornaram-se tão maiores do que nós, a tal ponto que nós tivemos que encurtá-los? Torná-los pequenos a ponto de caber no tamanho da palma da nossa mediocridade? Nunca saira do meu lado, mas ainda assim não está aqui. Ou sou eu que não estou mais? Não sei, não sei... Foi assim, de um dia pro outro, dia a dia, o calor da manhã e dos corpos não era mais suficiente, ou será que nunca fora...? , e cada vez mais esse teto branco certinho perdia sua graça, e a satisfação ia sumindo, minhas pálpebras não mais tão empurradas ao canto pelo sorriso, meus olhos cada vez mais abertos a procura de algo novo naquelas mesmas paredes, sempre brancas, tão perfeitamente brancas, que poderiam levar alguém a loucura!!! Sim sim, me responda, suplico-lhe, para onde tu foste? Onde fora a pessoa que era minha felicidade, o centro do universo e a morada de cada afago? Escorrera por entre meus dedos, tanto tentei prender o tempo em nossa eternidade? Os relógios escorriam, derretidos tamanha as dimensões com as quais se configuraram a torridez de nossas paixões, e com eles, nosso tempo e nós mesmos escorremos... E sobramos nós, sobramo-nos, agarrados no resquício do que um dia houve de belo... Sim, sem dúvida, sombramo-nos...
     O ar já se tornara mais grosso que meus pulmões a tempo, e logo não mais daria pra respirar sem retirar todo aquele peso de meu peito. Se sei que te quero, não, não, diga-me nada e coisa alguma, já não tenho mais certezas, e na monotonia dos giros iguais, sempre sob a minha órbita, meu eixo quis voltar a ficar tonto, e correr livre por toda a geometria. Se de cada pequeno defeito a gente logo cria uma litania, depois logo sairia todo um escapulário no qual se penduravam as diversas gargantas, numa estranha tentativa de respirar. Não, nada assim poderia ser, quando o peso se torna roupa, e cada poro se entranha com a borracha derretida e se fica preso numa bolha, os dias param, e todo o doce se vai. Senhora Felicidade me tocou, e eu, como todo bom tolo, devo mais uma vez seguir meus dias em sua busca...
     Os dias se foram, meu bem, eles sempre se vão, se esvão, vão se esvaindo, aos poucos, corroidos e liquefeitos, na roda do tempo. Viram papa, gosma, comida enlatada de nenêm. Não, não que eu me sinta tão assim... Acho que um dia te amei, e nossas lembranças ainda são doces, mas devemos viver de lembranças?! Não acho que seja possível, o hoje abomina e ainda assim é o ontem, mas não se pode viver de ecos. Os ecos cansam, especialmente quando são tão mais doces do que o hoje vem a ser. Segurança eterna, doces tolos. A beleza até pode ser parada, mas não os sentimentos... Eles precisam se esvair... Precisam? Não... Mas sempre se vão, deixando apenas o vazio em seu lugar... O hábito que veste os dias, o nada em que se dilui, inevitavelmente o cotidiano, todo o cotidiano, acho que ser cotidiano é se esvair em nada, os dias vertem essa substância como cascata. Quando até o mais importa, quando mais vezes importa, menos significa, vítima do estupro da iteração que desvirtuaria até a Deus. Deus não deve existir nesse tempo, ou se um dia existiu, foi consumido pela sua própria criação... Não, não pode mais ser assim, há de...
     - Amor...?
     * Voz de sono * - Sim, meu bem...
     - Eu te amo...
     Beijaram-se ... - Eu também...

Brasília, por volta do dia 15/08/2004.

Arcueid Brunestud, 5:22 PM



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