quinta-feira, agosto 13, 2009

      Eram uma e meia da manhã, e eu, me sentindo como que minha cabeça se afogava no redemoinho da espátula que mexia o gin e o martini, não por estar bêbado já (era o primeiro copo da noite), mas porque poderia dizer que minhas idéias iam aos poucos me inundando e criando uma espécie de entorcimento diferente, no qual eu não sentia nada por sentir algum barulho de fundo estranho na minha cabeça, ao invés da euforia da bebida, tomei a decisão de ir visitar o bar onde aquela menina da cinta-liga trabalhava. Era um pouco tarde, mas a maior parte da clientela eram os insômanos muito mais desligados do mundo da labuta, fosse por orgulho, fosse por privilégio, ou fosse justamente por desemprego, do que qualquer outra coisa, então eu sem dúvida me sentiria em casa. Tratei de pegar a moto e ligá-la rápido. O porteiro não ligava, já estava acostumado a me ver de noite. O porteiro do dia, se me visse saindo do estacionamento, provavelmente chamaria a polícia.
      Eram uma e quarenta e cinco quando cheguei. O ambiente era esfumaçado, e algum convidado da noite cantava em cima do piano como uma diva decandente, ainda que com uma camisa social semi desabotoada, e a menina do piano parecesse tocar bem mas desinteressada. O piano lamentava alguma coisa, e uma voz torpe seguia. Restava saber afogado no quê esse aí estava. A música era boa, leve, quase uma manifestação eólica da fumaça que se espalhava ao pouco pelo bar. As luzes parcas incitavam uma penumbra, e o estralo de uma bola de bilhar era seguido pelo clique da aba de metal da caçapa. Eu olhava com uma cara de tédio e segui para um lugar no balcão, procurando algum livro o qual olhar enquanto aguardava meu drink.
      Caroline me olhou de longe, e enrolou pra me atender como sempre, pois gostava de se demorar um pouco enquanto ia me servindo alguma coisa. Pra variar eu lia alguma putaria iluminista, e só não arranquei a página do livro pra enrolar um cigarro de palha porque não fumo, embora já tenha feito isso quando estava realmente irritado, e porque eu gostava daquele livro, embora já tenha arrancado páginas de vários outros. Pollyana era uma vítima favorita. Colocaram algumas páginas falsas naquele livro. Havia uma aposta de quando haveriam de arrancar todas elas. De qualquer maneira, eu fiquei em meu lugar, e como era costume, Caroline me pagou uma bebida, meio que esbravejando, dizendo, Se continuar a te ver aqui, acho que logo vou estar pagando pra trabalhar. Eu dei de ombros, disse que se ela gostasse daquilo, que poderia até fazê-lo. Paguei a ela uma bebida e começamos a conversar, enquanto ela tirava um tabuleiro de xadrez da gaveta. Nessa altura do campeonato, o bêbado do piano já errava a maioria das notas e a moça da partitura já havia ligado o piano automático, e dormia a generosos roncos, dignos de um verdadeiro ogro, pruma moça tão magra, embaixo do piano. Começava a fazer festa esperando que ele decidisse parar de cantar. Caroline e eu conversávamos.
      Naquela noite, falamos um pouco sobre identidade. Entre um drink e outro, ela servia algum bêbado qualquer que não conseguisse mais chegar no balcão, ou que não fosse confiável o bastante para marcar a própria bebida. Os que não chegavam ao balcão se amontoavam como crianças num sofá, e os segundos eram raros e logo expulsos, o que dava para nós dois bastante tempo. Caroline abriu com a siciliana, e eu comecei tirando os dois cavalos. Mas o que tem a identidade, ela disse... Eu falei que tinha tudo haver com o jardim de Pardis. O quê? Xeque, ela disse. Porra, Line, jogar esse bispo aí é besteira, você tá só pedindo pra que perde-lô a troco de um peão, Ah, foda-se, eu quero mesmo é cantar hoje, e responde minha pergunta. Bispo no saco, ela faz uma cara de esperta, e eu respondo, Bom, acho que tudo começa naquela parte onde uma pessoa se torna separada do todo de si, das percepções, Não, caralho, o jardim de Pardis, pára de beber e fala, vai... Ok, ok, o jardim de Pardis... Bom, a palavra paraíso tem origem nessa, Hm, é persa, e era um Jardim, e era daí que saiam as imagens de paraíso, Ahhh, tá... Então você acha que paraíso é a unidade de si? É, por aí, Xeque, Hehehehe, acho que você perdeu essa rainha, Ahn, como assi, ah, ok, mas eu acho que alguma coisa fratura a pessoa quando ela começa a desenvolver personalidade, e a personalidade na verdade é a tentativa dela de lidar com as pressões de lidar com a dor original disso... Hmmmm... como tentar lidar com as pressões de querer acabar com a própria dor e ter que lidar com ela? Bom, acho que resumidamente é isso, ops, você jogou aí mesmo? Joguei, e pára de encher e joga, Bom, é por aí, eu acho, a personalidade nada mais é que um construto baseado da dilaceração entre o todo pessoal e o resultado das demais forças presentes no mundo, ei, que cê tá fazendo, ah, esquece o jogo, vai, vem dançar comigo, essa é uma boa conclusão, Heheheheheh...
      Ficamos dançando um pouco. Tocava música lenta, e nós dois, bêbados como estávamos, parecíamos um disco em tempo trocado, o acompanhamento lento e duas pessoas dançando como loucas uma música que lá não havia. Alguns dos bêbados se animavam e bebiam alguma coisa por conta da casa, dando alguns brados de alegria, outros se atreviam a dançar com a própria gravidade e o movimento do transladar, algumas pessoas caiam em pares, alguns se divertiam como davam... A alegria parecia mórbida, considerando o clima pesado.
      A música mudava, seja para mim, ou fosse para Line, e fiçavamos dançando um caído em cima do outro, como que só de pé se sustentando. Ela falou para eu cair para frente que ela faria o mesmo, e milagrosamente o arranjo funcionava. Eu perguntei, com a voz aos tropeços... Line... Qual foi a sua primeira dor...? A minha, ela disse, mais arrastadamente ainda... Acho que a minha foi a de não ser vista... Ah, eu respondi, acho que te entendo. A minha foi a de não poder tocar em algo... Tudo bem, vai... Toca aqui... E ela me deu um seio a apalpar. Eu fiquei um pouco corado, e olhei pra ela com uma cara esquisita... Ela me olhou com um olhar de sapeca, e disse, aproveita enquanto pode, amanhã não vou gostar disso... Eu disse pra ela que nem eu, e fiz carinho entre os dois montes... Ela me olhou cabisbaixa e disse... Por que certos homens insistem em serem legais quando até nós não passamos de porcas...? Eu respondi com uma expressão amarga, dizendo, Vai ver é porque você é uma porca mesmo que eu sou legal... E continuamos a marcar o compasso de uma música lenta, meio que sorvidos num mar de luz azul estroboscópica, um para cá e outro para cá, outro para lá e um para cá...
      Acordei eram 10 da manhã, e Caroline já havia ido embora... O sofá parecia limpo, o que sem dúvida significava que a chave do bar estava no meu bolso. A camisa suja de vômito não deixava muitos indícios quanto a quem fez o quê. Fui ao balcão, e achei a minha conta da noite paga. Sifû, a mocréia podia ao menos me deixar pagar de vez em quando. Tomei um drink por minha conta, deixei o dinheiro no copo, ao lado da garrafa, bebi um pouco de água da pia, pra ver se aliava a ressaca. No caminho de volta, deixaria a chave num envolope dentro da caixa de correio de Line. Fiz um movimento no tabuleiro, e rezei para dessa vez terminarmos o jogo antes de quatro sessões, e tratei de ir pra casa, conhecer a cara do porteiro do dia...

Brasília, 13/08/2009, 05:54Am

Arcueid Brunestud, 5:54 AM



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