terça-feira, agosto 11, 2009

      E era como que algo que vagava ao contrário no fluxo da corrente sangüínea, pois a cada passo que dava e a cada lhufada de ar que sorvia, sentia como que alguma coisa corresse em mim contra a vida, no sentido oposto de mim mesmo, que talvez invadisse e que talvez, aos poucos, me tomasse. Com o passar do tempo, sentia que aos poucos alguma coisa em mim ia parando, a vida se extingüindo lentamente conforme o movimento inverso daquele dela ia ganhando mais força, até o ponto em que o sangue estagnava nas veios e o coração parava, lentamento tornando-se num mero objeto de relicário, uma lembrança dos dias passados. A pele logo tomava um aspecto pétreo, como que um antigo vale onde alguém ou alguma coisa se abrigou do inverno buscando pelos jardins de Pardis, e no fundo, apenas encontrou o resfriar típico da vida, que começa quente e aos poucos vai se perdendo aos confortos hibernais do não estar, na algidez dos dias frios que aos poucos foram tomando conta da terra. Nos olhos, duas límpidas lagoas de outrora aos poucos estagnavam e tomavam dolorosos aspectos de pântanos, como que gritando que ali alguma coisa parada e fincada maculava tudo em volta, a putrefação o único caminho viável à vida que foi perdendo seu ritmo.
      Um dia, como que por milagre, algo rompeu a tensão superficial da então nada delicada camada daquele espelho, que refletia muito bem a imagem na qual fora mirado. Como que o óleo que apodrece as águas do trânsito cotidiano, formou-se aquarela, e da tinta escorrendo por entre os vincos da íris, talvez ele tivesse notado que havia ainda algo dentro de si... Talvez, não digo belo, mas ao menos sincero, e eis que deixou-se levar pela contra-corrente, não mais lutando para nadar para lado algum, mas apenas se entregando àquilo que dentro de si sentia... E aos poucos, o corpo em redemoinho recolheu-se a aconchegou-se, deixando-se levar e escorrer, resvalar, de volta à posição em que viera ao mundo, ligado a sua origem no ponto em que o líquido amniótico tinha gosto de sangue... Hoje também nascia, mas de dentro para fora, num corpo já em si preso, afogado em tudo que sentira até aquele momento. Por fim... Deixou-se abater.
      Se aquele mundo fosse o fim de guerra, ele sem dúvida se via como que o mero soldado que se entrega plenamente aos ferimentos e cai, como se no fundo a morte fosse uma benção. Passou-se uma mão sobre seus braços, sobre seu tronco, fronte e cabelos, como que se dando conta ainda da integridade física, que caçoava da auto-imagem distorcida de um homem mutilado. Por fim, deu-se a morte daquele corpo, para que com, amparado nas possibilidades de um futuro que ainda não veio, simplesmente pudesse renascer. E aos poucos, o titubear do frenesi do coração disparado cessava, achando conforto no mero repousar. Deixava de fazer esforço, os capilares e veias se rompendo, como que a integridade incomodasse ao corpo que de hora em hora requeria algo, que de segundo em segundo inspirava e batia as palpebras como que buscando elevação da carne de um plano terreno. Morreu desfeito, esfacelou-se em mil pedaços e se transbordando pelo chão, mas plenamente feliz. A quem lhe segurava, sobraram-se as manchas de sangue, que a pessoa se perguntou se manchariam sua roupa, ou não...

Brasília, 11/08/2009, 04:46Am

Arcueid Brunestud, 4:46 AM



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