quinta-feira, novembro 13, 2008
Brasília, NDA Asa Norte, 28/10/2003 09:12Am
1a Revisão: Brasília, 02/11/2003 02:04Pm
2a Revisão: Brasília, 14/03/2004 11:43Pm
3a Revisão: Brasília, 18/03/2003 01:24Am
4a Revisão e Final: Brasília, 25/05/2007, 04:35Pm, aproximadamente
5a Revisão: Brasília, 13/11/2008, 01:09Am
Sim, era tarde. A queda da noite trazia consigo algum descanso, a possibilidade de abaixar a guarda. Apenas gostaria que o trânsito andasse mais rápido... Aqueles sufocantes momentos que antecediam sua chegada sempre eram envoltos por uma ansiedade palpável, que ia correndo por cada um daqueles pontos da incandescente tapeçaria que se extendia ao horizonte. Se sentia cansado... A noite parecia quase que pesada sobre seus ombros e olhos, como se uma densa fumaça marrom se espalhasse toda a noite nesse horário, deixando a todos grogues, anestesiados por algum imenso peso que tornava a todos uma espécie de Atlas, suportando o insustentável peso de seus mundos naquelas gaiolas sobre quatro rodas... A solidão lhe açoitava, e ele tentava se retirar de suas sensações olhando a sua volta... Percebia que quase todos os carros tinham apenas um ocupante. Homens e mulheres, alguns em caros carros importados, outros em carros populares, já outros tantos nos claustrofóbicos amontoados de gente do transporte público. Alguns poucos levavam os filhos, e até mesmo algumas famílias inteiras ocupavam os assentos de uns poucos automóveis, mas a regra geral eram espaços internos vazios, com excessão do banco do motorista. Em alguns casos, daqueles carros, se notava algo que muito lhe doia... Algumas pessoas pareciam que voltavam para alguém. Sim, se sentia terrivelmente sozinho. O que está tocando na rádio mesmo...?
Após 30 minutos, se ocupava de manobrar o carro na estéril garagem subterrânea de seu prédio. Os tons de concreto se associavam ao branco artificial da tinta de parede para produzir um cenário completamente morto, coberto de nostalgias esquecidas e memórias empoeiradas de tantas pessoas... Mas é só uma garagem... A vaga era ocupada pelo carro preto, o barulho da ventoinha de refrigeração ocupando toda sua percepção em instantes, como um general infalível e suas tropas incansáveis. Ficava a delongar sua existência, no ritmo e na melodia do silêncio, como se o compasso nulo ditasse aquele olhar vago e vagante perdido no nada, enquanto calmamente o cansaço consolidasse seu domínio, e uma esmagadora vontade de continuar naquela letargia debatia a paralização sindical daquele corpo... Mas que causa advogavam? Nem ele sabia... Que vontade de não fazer nada... Preguiça, preguiça, e nem sabia de onde vinham todas aquelas vozes tentando-lhe com promessas de que o descanso seria-lhe um conforto imensurável, e lhe escapava da compreensão o porquê de tanto desejar aquilo. Lutava e degladiava-se contra aquela vontade de simplesmente abaixar a cabeça ao volante e entregar-se ao próprio silêncio, mesclando-se àquela acolhedora quietude, embora sequer entendesse de onde vinha tal vontade... Mexa-se, rapaz, antes que você durma aqui mesmo... E mexeu-se.
O rangido da porta ia aos poucos silenciando conforme seu lento movimento cessava, e a parca luz prateada do luar entrava pela janela para revelar por entre a escuridão os contornos de uma sala de estar muitíssimo bem mobilhada e adornada por uma exuberante decoração. Ficava lá, parado, observando sua própria casa, banhada naquele brilho argenteado como se jamais a houvesse visto. Sorria. Lar doce lar. Com um brilho triste de um melancólico conforto lhe adornando o olhar, a luz da lua refletiu-se em seus olhos conforme adentrava aquela moradia, e seus agora descalços pés brincavam com aquela bela camada de poeira lunar no chão, enquanto deixava novas pegadas naquele carpete. Sorria. Lar doce lar.
Checava a secretária eletrônica e o bina, mais por hábito do que por esperança. Nada, como sempre... Tudo bem. Nem sempre as pessoas podem ligar mesmo... Ia à cozinha, e o hipnótico barulho da violenta fuga do vapor anunciava que a janta estaria pronta em breve. Tratava de arrumar a mesa, cuidadosamente extendendo a toalha de maneira simétrica e arrumando os pratos de forma cuidadosa, quase como se tentasse cuidar de algo que ele mesmo sabia que não existia, embora não conseguisse deixar agir daquela forma dedicada e carinhosa. Notava enfim seu lugar à ponta da mesa, e todos os lugares vazios a sua volta. O suspiro foi acompanhado por um sorriso conformado. Não entedia porque sentia tanta saudade daquilo que nunca teve... Fechava os olhos, como para que se esconder de si mesmo em meio a sua impotência perante aquela sensação, quando lembrou-se da janta. Correndo, foi a cozinha e tirou as panelas do fogo. Entregou-se completamente ao ofício da culinária, e indiscutivelmente possuia grandes habilidades no preparo de quitutes mil, e pratos simples em suas mãos se tornavam iguarias sem igual. Temperava, preparava, cortava, transformava o alimento em obra de arte e mosaico ornamentado pelas mais diversas formas e padrões, e seguia em seu deleite contínuo ao cozinhar diversos pratos. O tempo mal se opunha àquele exercício lúdico, e as horas que tantas vezes perdiam-se por entre os segundos voltavam a dançar, extendendo aquelas mínimas parcelas de tempo em pequenas eternidades. Então, de alegre e descontraida maneira, servia aquela imensa mesa que se extendia ao infinito a todos os recém-chegados no salão festas, que levantavam-se e brindavam com suas grandes canecas de cerveja preta, cantavam e dançavam em meio a animada música, enquanto ele deixava-se levar de maneira irrepreensível pelo clima de festa, cantarolando e dançando. Enfim, um brinde foi proposto a todos, e em meio à luz das velas que iluminavam o enorme saguão, todos os seus nobres convidados levantaram-se, suas belas capas a dançar contra o vento ao som da música contagiante dos alaudes dos menestreis, e então todos os fantasmas brindaram em seu nome...
O luar iluminava seu corpo, inclinado sobre a mesa. Apenas a respiração marcada registrava o ânimo ali presente, e como respirava com força, ofegante, o sangue lhe circulando como fogo a rodopiar numa ventania, queimando-lhe as veias e lhe gritando a vida. A lenta lágrima que lhe percorria o rosto reluzia à luz das estrelas, e desprovida de pressa, descia, aos poucos acariciando-lhe a fronte, chegando lentamente a sua boca, e anunciva afavelmente o mundo a sua volta. Abria os olhos então, já sabendo de tudo o que houvera. Observava a sua volta aquela existência tão desprovida de sentido, que se ostentava meramente pelo costume de o fazer, e suspirava, arrebatado. Olhava as panelas, agora frias, o metal refletindo as luzes alvas dos postes. Tentava tomar o controle daquele corpo abatido e daquela alma, suas sensações, de tão intensas, dando-lhe a impressão de que se condensavam e tornavam-se visíveis em sua respiração. Suspirou mais uma vez, como se para exorcizá-las de uma vez por todas, e levantou, por fim. Olhou o relógio de parede... 3:25 da manhã... Droga. Algo me diz que vou ter que esquentar minha janta...
Comeu, e comeu até fartar-se. A janta havia perdido um pouco de seu sabor, mas não era problema, até por que havia comido já fazia mais de uma hora... Seu problema agora era a falta de sono, característica desses dias, para ele. Rolava pela cama, rolava a bonbordo e a estibordo, o trepidar daquela náu imaginária apenas lhe atiçando a consciência ainda mais, enquanto a tempestade de pensamentos lhe flagelava, a corrente destes incapaz de atingir alguma calma, assolada pelo tédio e pela agonia da ausência de alguma saída e fuga de si mesmo. Chega, eu vou é ver televisão...
Reclinado na poltrona, se deixava ir levando por aquela torrente incansável de imagens e sons. Roteiros e atores iam preenchendo sua consciência, que na falta do torpor do sono, pelo menos podia se retirar de si mesma por meio de uma atividade tão mecânica que não apenas dispensava sua presença, mas parecia suplantá-la quase que por inteiro. O tempo fluia, as areias do tempo escorrendo por entre sua mente... Ficava olhando em falso aquelas imagens, usando-as como um ponto de fuga onde podia se esconder além do plano da consciência. Perdia-se naquelas fotos que insistiam em se alternar num ritmo ameno, enquanto os canais iam se alternando conforme o bel-prazer da mão que segurava o controle remoto. Sim, agora ia, se perdia mundo afora por sua visão, deixando-se ir ao Egito, e voltando a mesopotâmea, visitando o jurássico e reencontrando antigos amores que nunca havia conhecido, mas ainda assim tornavam-se palpáveis em meio a todo o furor do retorno de seu batalhão após a guerra contra os nazistas. O dia de apostas em Monte Carlo foi um sucesso, e agora tornara-se o mais novo milionário da cidade, porém, tinha de lembrar-se de não chamar tanta atenção, pois os russos poderiam a qualquer momento notá-lo finalmente como um espião do mundo capitalista. Pensava em sua vida... Olhava em retrospectiva, e notava que se havia uma coisa naquele momento, era que nada que vivia parecia fazer o menor sentido. E enquanto os cinco oscilavam entre a consciência e o delírio sonâmbulo, o homem do tempo e suas previsões faziam cócegas e a vontade de rir lhe pegou de surpresa, desprovida de um motivo para si... Mas isso não fazia o menor sentido, e sem dúvida as risadas tornaram-se cada vez maiores, tomando-lhe por refém, que for fim se deixava levar por elas. Realmente, não fazia o menor sentido, e isso apenas lhe fazia soltar gargalhadas cada vez maiores, gargalhadas que já não sabia distinguir se eram risadas ou um choro... E é verdade, não faz o menor sentido... Huiaheuihaiheahuiehuiaheiaheihaeuihaheiaheuiaheuiaehiaheiuaheiuaehauieeehaiehiauehiuah...
Brasília, NDA Asa Norte, 28/10/2003 12:34PM
1a Revisão: Brasília, 02/11/2003, 05:47PM
2a Revisão: Brasília, 14/03/2004, 11:58PM
3a Revisão: Brasília, 18/03/2004, 01:42AM
4a Revisão e Final: Brasília, 25/05/2007, 05:20Pm
5a Revisão: Brasília, 13/11/2008, 01:21Am
Conto baseado na música "Satellite", Dave Matthews Band.
Arcueid Brunestud, 1:24 AM
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