sexta-feira, janeiro 19, 2007
Um nada me devora. Sabe... Não um nada bom, que te toma e passa a literalmente te preencher de nulidades e vácuos, mas um nada sufocante. Um vazio... Como um saco plástico. Os hedonistas e os masoquistas dividem um prazer, que é o prazer do orgamo enquanto se vêem sufocados, enquanto enxergam o mundo borrado num saco plástico úmido e embaçado de volúpia, segurado e apertado por duas mãos carinhosas. Irônico eles dividirem isso, mas nessa suposta dor e incapacidade de respirar, encontram um prazer único e deveras suntuoso. Eu particularmente não sei, nunca tive alguém para devidamente me sufocar.
Há nadas e há nadas. Há nadas interessantes, do tipo que vêm como um amigo, como parceiros de dias cinzas e de noites não-estreladas, não do tipo de noite apagada por um céu escarlate, gosto muito dessas noites, mas sim do tipo que parece que te apaga com ela. De fato nunca vi uma dessas, não há noite chuvosa que não seja magnífica, assim como não há chuva que de fato não seja maravilhosa, mas uma noite ilusória, uma noite pequena e criança, criança morta com a qual pais carentes e possessivos brincam todas as noites, como se fosse um mero brinquedo e não um ente partido. Mas sim, a casca é mais plena quando vazia do que quando cheia... Acho que somos patéticos em nossas tentativas engraçadas de atingir alguma coisa, qualquer coisa, qualquer coisa que seja, e jamais chegando lá. Acho que nisso o vazio é mais concreto por ser algo que se completa em sua finalidade nula, em sua existência fechada, em sua realização objetual, concreta e precisa. Um cadáver sempre será um cadáver, ao passo que um ser humano jamais parece ser alguma coisa; fica oscilando entre diversas variedades de nada, até por fim se completar. Mas enfim...
Há nadas particularmente bonitos. Lembro de todas as vezes que conversei com meus nadas. Meus nada sempre foram coisas belas de vez em quando, e sempre me faziam companhia. Certa vez, subi no ponto mais alto que achei e fiquei conversando sozinho acompanhado... Seriam espíritos? Aposto que sim, mas ao ponto de vista de objetividade, da modernidade, da ciência e da finalidade desse texto, visto que a visão e a ignorância, juntamente com a tendenciosidade e parcialidade são grandes aliadas da arte e da ciência, era um nada que me acometia. Há os nadas sozinhos, há os nadas pequenos, que vêm para mostrar ao ser quão grande e vasto ele é, tal qual fosse de fato enorme extensões de vácuo e de vazio se extendendo por todos os lados, como que se alastrando, e às vezes adornado por uma estrela ou corpo, possivelmente cheia de idiotas como esse no qual estou, ou possivelmente uma nebulosa, que pelo menos tem uma finalidade interessante de adornar elegantemente o espaço. Acho que eu estou denominando as funções do mundo. Nesse caso, é como se o pouco de pleno e concreto que existisse fosse por demais real e realizado, e nesses dias eu enxergo o nada que me agloba como sendo eu mesmo, como sendo algo maravilhoso, como sendo alguma coisa como um traje de realeza, e eu me torno como constelações, como enormes nuvens e campos de vazio que se alastram aos confins do universo, sempre pontuado por diversas galáxias e uma riqueza de pequenos detalhes mínimos e pequenos que tornam, tal qual uma bela jóia, esse algo, esse vazio, um dos mais ricos algos que há.
Mas não é desses nadas que quero falar..
É engraçado, mas ironicamente o nada acima é o que me é mais patente e íntimo, por mais que não nos vejamos muito. Em contrapartida, o real companheiro que se faz presente em todas as horas do dia, até mesmo nas melhores e mais completas horas detalhistas, é um nada um tanto tangível, um "quase nada"-nada, como se fosse um rebento rebelde da família, o filho pródigo que por outro lado mais rico se tornou entre todos os outros, justamente por ter se tornado o maior rei da miséria; humilhante a todos. Aí começa a relação de bem e de mal, e de todas as brigas e incompletudes que um narcissista pode ter, aqui se encontra o mal e a origem de todas elas... Veja, como se o nada fosse realmente um nada, no fim do dia, às vezes as coisas reais e tangíveis não são mais como mero adorno, mas sim como pequenos cacos de vidro de um vitral bizantino, ou talvez como se fossem as primeiras experiências que um ser poderia ter com essa forma de fluído, o fluído, estático, sim, como se os ex-algos agora fluissem e me arrastassem em seu leito caudaloso, me triturando com sua multitude de pontas e lascas, como se de fato fosse arrastado às profundezas por uma onda de proporções gigantescas, como se o próprio Maelstrom se levantasse de seu regaço em algum local distante do mar e decidisse se impor, frente à mediocridade de todas as ilhas que se escondem acima dos domínios da fenda marinha, do leito marítimo, e enfim se tombasse, apenas tombasse, como se o mero gesto de se deixar levar fosse tão maior do que o estoicismo mínimo das faixas de terra, que tremem sob seu próprio peso e desabam e se rasgam segundo suas próprias pressões internas, mas que ousam insolentemente se levantar em orgulho frente a tão devastadora força, que agora, cai de volta em suas vidas, lhes levando para onde jamais deveriam sair, lhes levando de volta aos seus braços como um pai possessivo ou uma mãe histérica, lhes levando de volta ao recolhimento salutar da proteção enfadonha dos entes paternos, lhes levando ao fundo e à essência daquilo que se ousaram erguer contra em sua necessidade de se desvencilhar da essência original. E a existência assim também é, ai daquele que ousa se impor em sua soberba altivez, e estufar o peito em vazio com um ar nulo de tristezas que não se importam mais em assim ser, há de tombar completamente frente à força do algo que se reduz a ilha e adorno quando talvez de fato seja essência e existência, berço do real e nascido do vazio, sim, somos de fato nascidos de vazios que não se completam, e continuam se chocando eternamente, como se o movimento de pistões que produzem vidas de fato simbolizasse perfeitamente a dinâmica insassiável que acomete e que devora aos casais e aos amores, aqueles choques tectônicos de uma boa foda na verdade demonstram com qual força as pessoas se espancam, se batem e se devassam, numa tentativa estranha de superar as barreiras da pele e quem sabe preencher assim aqueles mesmos vazios que um dia as pariram, as trouxeram ao mundo e lhes serviram de placenta, ó filhos ingratos, retornem também ao teu vazio pois foste deles que vós viestes!!, urraria injuriado e ofendido o vazio paterno, com sua companheira de nada que lhe elude no horizonte, com seu nada que já não existe, mas também com sua essência impressa na alma dos seres que aqui habitam...
E aquele vazio que antes circundava ao todo, que por sua vez pode também ser vazio...? Ah, mas é desses vazios que gosto, minto, não, desgosto e que tanto me ofendem e me destroem... Esses vazios estranhos, sabe, que não se sabe se nasceram em si com alguma essência ou se são a realização de uma essência vazia, tal qual se fosse o universo, e por absurdo viesse a se extirpar de sua condição vazia e nula e ousasse o ser, tal qual o vazio que é gestado dentro desse mar de coisas que são, de micróbios que às vezes se juntam em colônia e por fim em organismo, tal qual as coisas que ousam se erguer e estufar o peito mas por fim também não se sabe suas origens e onde se perdem e o que são, só posso dizer que com certeza talvez sejam antagônicas em mim, ao ponto de que não sei exatamente o que seriam e que de fato se são ou não são nem sequer poderia sonhar em dizer, mas que de fato me consomem, algumas numa incrível capacidade de extensão, como se fossem pradarias eternas e campos bucólicos de significados profundos e vazios, como uma cor branca eterna de um mundo perfeito perdido em luzes alvas de estrelas e do arfar de asas de anjos, como se fossem por si só a luz da existência em toda sua nulidade, e como se eu por fim tentasse ser universo a nascer do nada mas que é impedido e segurado pelas partes horrendas e dominadores que ainda me são, que ainda são, e que se recusam a viverem de um mar de autenticidade de mim mesmo, e justamente essas outras, essas infames sedutores de corpor vil e sinuoso, nas quais resvalo vez ou outra, e sinto todo meu mundo de nada ruindo aos poucos em cacos de luz branca que vão se espalhando quebrados no chão, como se nada fossem e como se algo jamais serão... Mas nesse nada ser, foram sendo caracterizadas em nada, quem sabe assim abrangindo o existir... E vão minguando em pequenos pontos como gotas de orvalho, sujas de óleo, escorrendo pelas pedras da relva, saindo aos poucos e se diminuindo enquanto ficam por aí, tentando ser alguma coisa, tentando justamente ser alguma coisa vazia e justamente falhando em base no mérito de sua tentativa, deixando a possibilidade da empreitada lhes tanger a incapacidade de de fato se não tornarem. Mas acredito que a vida seja feita dessas pequenas incongruências, e talvez habitemos numa delas...
E enquanto isso, eu vou me perdendo com meus nadas e sufocamentos, mas não dos sufocamentos bons que os hedonistas e masoquistas dividem... Fico lembrando de mãos pesadas de cinco dedos cada se entrelaçando em minha garganta, propondo prazeres liminais enquanto eu me entregava a uma dor apertada que mais lembrava um abraço dominador que precedia uma certa resignação, de frente a um inerte e ofegante amante extasiado, meu corpo inspirando um ar fustigante, um ar que queimava na respiração como se embebido em brasas, sempre remetendo àquele momento elusivo no qual um ser se torna incompleto e nasce, vindo a um mundo doloroso e inquieto, num corpo de incôngruo e contraditório. Pois quase sempre que transava, eu fingia gozar...
Brasília, 09/01/2007, 05:58Pm
Brasília, 18/01/2007, 02:06Am
Brasília, 19/01/2007, 02:48Am
Arcueid Brunestud, 1:56 AM
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