quinta-feira, outubro 05, 2006

      O amor sequestra vidas, e as mantém reféns de pessoas que às vezes sequer as querem. E um dia qualquer, antes que se note, de maneira desapercebida e rasteira, você descobre que sua vida não é mais sua e que jamais foi, e que toda a ilusão de ser uma criatura que serve a si mesma cai por terra, revelando de fato o altar erguido em adoração a um deus que caminha na orbe mortal, e que se ergue em carne e sangue no sacríficio diário de se manter existindo apenas para consagrar a própria vida à obra deste sagrado ser.
      Não acho que exista nada a fazer; todas as teorias e ornamentos filosóficos desabam frente ao desejo exorbitante e extelúrico de dedicar vida e todos os dias a uma outra existência, à qual daqui pra frente se irá se amar e tornar amo, ainda que não se tenha noção de motivo ou porquê; simplesmente... acontece. Longe de ufanismos, longe de desenvolturas, longe da elegância, onde os desejos são simples e informam àqueles que os têm que de fato não têm a nada, e sim que são posse de seus desejos, esses os verdadeiros donos daquele existir. E sem opção, simplesmente... Se cede, não podendo se fazer coisa alguma frente ao afã invasor que conduz com maestral estratégia sua guerra de guerrilha, e que aos poucos convence à tudo que habita em si que de fato se é ele, e logo se se dá em entrega plena a executar os caprichosos desígnios daquela ânsia, transformando-os em verdade e dando-lhes substância na realidade tal qual um mago ou alquimista faria, o corpo e mãos se tornando pedra filosofal para conduzir a vida à verdade por detrás dela... Ou apenas para se embebedar no licor barato dos estetas e epicúrios, um empirista de esquina vivenciando um novo ansiar decadente.
      E sim, em meio a todo esse alvoroço cotidiano que se dá por detrás da ribalta de um epitélio complexo que se extende numa sacola, os jornais deveriam declarar sim o grande crime do século, o que acontece quase de maneira seviciante sem que sequer se possa opinar a respeito, todos os dias da vida de maneira implacável; Sim, façam escândalos! Os direitos humanos são diariamente violados... O amor sequestra vidas, e elas, jamais são devolvidas àqueles que um dia as viveram... Essas, apenas mudam de cativeiro candida e resignadamente, andando em fila indiana com suas mãos na cabeça numa selva inóspita conduzidas por um barbudo e genérico guerrilheiro impiedoso de posse de armas russas contrabandeadas e um inamerceável açoite de vontades, já sem muita esperança, se perguntando se algum dia realmente haverá resgate nos braços de alguém cheio de amparo, que se tornasse casa ao ponto de que aqueles que um dia viveram e suas vidas arrancadas pudessem voltar a se encontrar naquele idealizado lar...

Brasília, 22/09/2006, 05:57Pm
1a revisão: Brasília, 22/09/2006, 06:05Pm
2a revisão: Brasília, 05/10/2006, 01:23Am
3a revisão: Brasília, 05/10/2006, Em algum lugar próximo às 01:40Am

Arcueid Brunestud, 4:03 AM



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