terça-feira, junho 27, 2006

Utopias

      Um ser humano, numa dessas ensolaradas manhãs dum verão melancolicamente quente e feliz, achou um antigo pergaminho sagrado, mais velho do que o tempo humano em si, que lido uma vez por dia durante uma semana, daria a própria felicidade absoluta à pessoa que o achasse e assim procedesse. Então viraria pó, e reapareceria em algum outro lugar qualquer.
      Achou tal magnífico artefato, e exultante, seguiu para a casa de seu mais querido amigo para promover uma festa de arromba em comemoração. E assim sucedeu-se; e a festa foi devassando a madrugada e dia até que ao cair da noite todos da vila se viram seduzidos pela canção de sereia do cansaço e suas promessoas de afogá-los em uma gloriosa renovação... Todos, menos um, que procedeu em seu comemorar com meticulosa e premeditada comedição.
      Seu amigo, sabendo de antemão tudo sobre o pergaminho, pensava na confiança do outro, enquanto observáva-o durante a noite, e lembrou que por mais que gostasse dele, não poderia, nem deveria, se importar... Pois a única pessoa que seria feliz seria o outro, e não ele. Ele. Ele, a única pessoa que existia no universo. Ele, o único universo com o qual tivera contato, e que jamais poderia ter contato com outro fora aquele. Por mais que gostasse do outro, sabia: A única pessoa que importava era ele próprio. A oportunidade era única, o tempo era certo, a hora era exata: Não havia nada além a fazer. A frustração dos outros não importa, era a frustração Dele próprio que importava, até porque raramente outros farão alguma coisa a respeito daquela frustração. Até porque realmente não é problema de ninguém, a não ser dele... Dele próprio. Ele era a única pessoa cuja felicidade era de sua responsabilidade. Ele era o único que lutaria por ele.
      Sumiu durante a noite e nunca mais reapareceu. O outro, uma menina bela, de longos cabelos castanhos e olhos verdes, ao acordar e ver que o pergaminho e ele haviam sumido, viu que tudo se sucedera como planejado. Sorriu levemente... E disse à brisa:
      - Seja feliz... Assim como eu desejei. Sabe... Eu sempre quis ser feliz contigo, e já que nunca pudemos... Seja feliz, pelo menos você... Ela suspirou, inalou o ar daquela manhã lentamente, e continuou...
      - ...por fim, eu pude te completar, fazer pleno, para todo o sempre. E agora que eu finalmente te dei o que queria, eu finalmente posso.. Descansar esse sonho, em paz. Enfim, ela olhou para o horizonte e o sol da manhã a refletir nas ondas; deu de costas ao mar e se foi.
      Sabendo que enfim havia o feito feliz de maneira irremediável, tratou de perseguiur sua própria felicidade. Nunca se arrependeu daquilo, pois havia realizado seu maior e mais distante desejo sem dedicar sua vida a outro. Ela não abriu mão da plenitude... Mas sim ganhou o direito de conquistá-la... Pelo menos, pensou assim sempre. Podia finalmente se apaixonar de novo.
      Para ele, a história não mais era importante, por mais que ele talvez tivesse vindo a ser importante para a história, como o primeiro e único ser humano realmente feliz. O pergaminho não foi mais encontrado, e espera até hoje para ascender mais alguém à plenitude.
      ...ela sumiu da história como outro personagem sem importância qualquer.


Brasília, 27/06/2006, 04:00Pm
1a Revisão: Brasília, 27/06/2006, 04:04Pm
2a Revisão: Brasília, 27/06/2006, 11:09Pm
3a Revisão: Brasília, 09/11/2007, hora desconhecida

Arcueid Brunestud, 3:47 PM



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