sexta-feira, agosto 27, 2004

De Shiho

      Sonhar. É de odes eternas e melífluas que escrevo alguém, guardião do meu eu todo. Se de farsa obscura eu crio diversos mitos, logo sei, eu, que da caravana do antigo oriente, logo me sobrarias tu, ser feito e criado, dono de toda uma existência.
      És sublime, realmente, e este que tenta em vão delimitar-lhe os traços... Nada mais a dizer.
      Pois é. Cada uma das dores é promessa, é promessa de sua reversa, de tudo que deixaria de ser. Me avassá-lo, me entrego, a cada uma das tristes promessas de uma dor que jamais haverá de se cumprir. O que teria nesse momento em que isso se sucedesse? Acho que nada...
      Afirma-te então logo sobre minhas vistas, afago quiméril da memória e do conceito, antes que esses olhos de novo fechem-se abrindo. É da tua falta que eu vivo, sorvendo em cada visita um pouco da tua ilusão. Nutrindo de dia a lágrima motriz que cai, levando consigo e à frente a roda da razão, do dia e da noite, que ainda me dou o luxo de querer viver. Se me nega até a mentira, eu sem dúvida logo calaria na entoada da vida; a derrocada nada mais é do que o despertar da visão... Triste, triste, perdido e nu, que fica a rondar os anos deixados nas memórias dos que ainda dormem, torpes, só sabendo do algo que atrás de si existe, enquanto lambem a parede de verdes e brilhantes ladrilhos.
      Por que? É só pra ter o que falar mesmo, já que há tanto não digo nada. Talvez seja hora de limpar os armários da angústia e do medo, deixar a copa vazia às baratas do meu edifício, esses pedaços inquietos do meu ser. Rondam as sobras de comida, descascam o que mais buscam na ânsia por podridão e segurança. Não vê que queria eternizar o susto, esculpí-lo e engendrá-lo, concreto e sustento, para nele construir minha morada de parafina orgânica chamada carne? Seria a mais confortável das poltronas, uma na qual poderia sentar e assistir meus canais favoritos, Discovery Channel e National Geographic, falando de fossas e fendas, falhas e magma, arqueologia e ruínas. Nada admitível. Nada criável.
      A vida poderia viver por mim só um pouco, para que eu soubesse que finalmente eu podia parar (ruir?)... Não dá, não nessas bases inertes que só insistem por causa do ânimo. O coração não bate, espanca, violentando e violando o ser que lhe retém, implorando para que pare... Chega. Não, nunca chega, persiste em bater incauto e indiferente à dor que carrega. Por favor, chegue...
      Antes quisesse sim teu corpo aforme, que plana no ar, vítima das misturas dos olhares, minha ambição sim é teu colo, regaço e baia dos mares reboliços que guardo no coração meu, tomado nunca por calmaria alguma, mas sim sempre casa da maré alta, cheio e lotado, conhecedor de nenhuma calma. As grandes cascatas não-sidas, as paredes que me prensam em existir, a dor do aperto e aperreio, cada inspiração sempre inflamando este corpo tomado por animotite, o eu preso, preso nas celas do ser que o delimitam e tão dolorosamente lhe impede, de se misturar na atmosfera, para que achasse morada nos recônditos hostis do corpo, ao menos nisso então acolhido...
      E a garota do dia fechado pelo menos teve alguém que lhe desse carinho... Shiho foi o mais triste dos meus sonhos.

Brasília, 27/08/2004

- S.

Arcueid Brunestud, 2:37 AM



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