quinta-feira, dezembro 08, 2011
Eu sempre que fico triste, sinto uma vontade de que o mundo acabe. Näo que eu morra, mas sim que o mundo acabe. Talvez seja uma questão de egoísmo, ou talvez, mas provavelmente seja simplesmente que eu não tenho o desejo de que exista um mundo, uma possibilidade, um caminho diferente.
Não... Eu quero uma justificativa, um bom motivo pra sentir que o desespero é de fato absoluto. De que não há mais alternativas, de que não há mais para onde ir, nem o que fazer. De que tudo acabou ali. Isso seria aceitável, enquanto que sobre o morrer, deixa claro sempre o tamanho da perda de possibilidades.
Acho que é por isso que o suicídio é tão inaceitável. Eu, por minha vez, prefiro pensar no fim do mundo. De se ser abocanhado pela boca faminta de um cataclisma que não satisfá-se-á com uma nem com mil vidas, mas sim com todas. Com o fim, puro, simples, absoluto, inexorável, inegável, inqüestionável, irremediável. Sem mais saídas.
Talvez eu de fato seja egoísta...
Hoje, uma pessoa por quem eu fui um dia apaixonado, me disse que depois da segunda ligação, sua paciência acaba. Eu não pude deixar de pensar nas implicações lógicas disso, ainda mais levando em conta a questão de que essa pessoa teoricamente ainda me amaria. Tudo mentira. O amor termina depois da segunda ligação...
Também me foi dito que eu sabia que a pessoa estava de mal-humor, e que eu pedi pra ser machucado, praticamente. Vai ver é verdade...
Eu não consigo deixar de pensar no que li nesses dias, sobre o sexo limitante... Quem é o dono do limite? Quem é que quer mais? Por quanto dá pra vender?
Hoje eu só queria morrer. Felizente, a sociedade moderna disponibiliza de forma nada parcimoniosa vários implementos do não-estar-aqui. Vou me aproveitar de alguns deles, e esperar que minha caminhada pela Oblivia seja graciosa, e que não traga de volta a dor dos excessos ao organismo.
Arcueid Brunestud, 3:34 PM
terça-feira, dezembro 06, 2011
A falta de perspectiva da minha vida parece estar cada vez mais óbvia e dolorosa, a ponto de que mal consigo sentir algum prazer, apenas alívios momentâneos advindos de algumas atividades.
Sem amigos, sem perspectivas de contatos sociais, sem qualquer possível participação naquele luminoso mundo de contato, onde se quebra aquela distância infinita entre dois pedaços de pele e os muros de carne que se entrepõe entre a realidade humana e a essência da consciência, seja lá o quê for... Confinamento solitário permanente?
Há sempre a possibilidade, crua, nua e real, de que, mediante um ato de violência, seja possível se quebrar com as barras de paradigmas, com os espaços pessoais... As tristezas secretas dos pavões, o peso seviciante de suas caldas lhes doem às costas, mas lhes valhem atenções mil... Enquanto no meu caso, por mais que a remoção do espetáculo não necessariamente implique em fraqueza, não, não afeto qualidades que não tenho, até por não demonstrar nem as que possuo. Fico preso, o corpo uma âncora desconcertante, que mais denota a ausência do que a presença.
Pensando nesses termos, não é de se espantar que sejam difíceis os relacionamentos comigo. A estrutura básica dos contatos humanos padrões revolvem em torno da noção de existência, de demonstração, de impressão; de existir pelo barulho. O que não ecoa e retumba, então, passa a ser algo que não existe? Aparentemente; assim como algo desconcertante, um estranho vazio existencial, uma lacuna ambulante, um vácuo tangível... Um conceito que se recusa a entrar em categorias pré-estabelecidas necessariamente desafia toda a edificação do conhecimento, e nesse ponto, perturba.
Como posso então encarar minha existência em outros termos, se não as do desconcerto e incômodo, para outros? Nesse ponto, há a questão da identificação, talvez... A de que pessoas semelhantes talvez entendam.
Alguém me aponte à terra onde meus anseios nasceram, então, por favor. Essa obviamente é incapaz de me receber e de atender às minhas necessidades...
Arcueid Brunestud, 10:11 PM
sexta-feira, dezembro 02, 2011
Há dias em que o tato parece tão ressecado, fino, delgado por demais devido aos dias secos e frios, que posso jurar que ao menor toque gentil, despedaçar-me-ia, nem sequer rachando como que ainda deixando pedaços, mas sim como que uma bolha de sabão a se desfazer, que ao perder qualquer uma de suas partes não divide-se em menores parte, mas que some por completo sem deixar rastros...
Vai ver as bolhas de sabão, em sua tenra fragilidade, são simplesmente perfeitas, incapazes de serem reduzidas além do que já são; unidades absolutas.
...vai ver é isso que a solidão faz com os humanos; os torna tão completamente absolutos, incapazes de serem divididos em mais partes, que quando acontece o quebrar, não se separam, não se despedaçam em partes coesas, mas sim simplesmente se desfazem em nada...
Só mais outro dia triste, vai. Só outro dia com a pele mumificada pela aridez do cotidiano e da solidão. Vai ver uma hora acaba...
Arcueid Brunestud, 1:31 PM
sábado, agosto 15, 2009
Todos os dias eram ruins, e isso para mim era um fato consumado; não havia um dia sequer que alguma coisa em mim não quisesse ceder ou simplesmente se esparramar e perder sua forma, sua tensão, sua tensão superficial, para que eu parasse de me esmurrar contra o espelho dágua sempre que via a minha imagem, apenas para descobrir que não só me partia todo ao me jogar de um despenhadeiro contra o corpo líquido, como também descobria que após me esmurrar contra minha própria imagem, a única coisa passível de fazer era simplesmente afundar naquilo, não desfeito, mas apenas estraçalhado, sentindo-me como um amontoado de pilhas de nada, mas também como que sufocado naquilo que via, traduzido agora em parte da essência que antes, apenas distante me assolava, mas agora me envolvia de forma asfixiante. Sentia-me preso.
Aquele dia em especial era péssimo, pura e simplesmente, porém. A impressão que tinha é que dessa vez o espelho, não apenas contente em me sufocar pós minha tentativa de quebrar com aquilo que via, também se sentia no direito de se apresentar perante mim e me jogar contra a parede e beijar-me, num beijo maldito que ao invés de me dar algo, algo de mim tirava, como que eu sorvesse aquele resquício umbrático qualquer ao invés de ar, e logo me visse preso dentro do que respirava. Tinha dificuldade de respirar, por sinal; sentia alguma coisa, como que me esburacando o peito, uma dor qualquer, inexata e irreal, pela intangibilidade, e um desejo esquisito de que dessa vez eu me engasgasse em mim mesmo de vez, e quem sabe acabasse morto depois de umas vinte ou trinta tossidelas e algumas pigareadas, após provar um pouco do meu próprio remédio: eu mesmo.
O dia ia seguindo, e conforme minha sombra se alongava sobre o chão, sentia na verdade que quem restava de sombra era eu, como se a imagem refletida sim fosse alguma coisa e eu uma mera sobra, algum resquício de coisa não-dita ou feita em excesso, como um resto de cigarro que decidiu se fumar. Sentia que precisava e logo sair dali. Decidi ir ao lugar de sempre, na hora marcada do ponto maior do vazio e da angústia: o café 27.
Cheguei lá às duas em ponto, depois de amargar um pouco da dieta de ter que me tragar por tempo demais, e sinceramente, era intragável me ver preso dentro daquela teia de carne amarrada por vasos sangüíneos e presa numa rede de tendões. Eu me mexia aos poucos como que confuso, esperando encontrar algo que nem sabia ao certo o que era. Sim, sabia sim. Queria o de sempre: um pouco de compreensão de quem talvez já fez mais do que devia e viveu pra contar a história. Acho que sempre que tive a sensação de fraternidade, ela era um tanto fugaz pois talvez eu soubesse que, idiotas como fossem meus pecados, era eu quem os tinha que agüentar. Talvez aquela sensação dolorida de algo dentro de si martelando num ritmo certo uma agulha contra as batidas do coração fosse algo conhecido por ali, e no fundo, acho que algo que permeava o lugar era a cumplicidade pelos excessos, algo que ali todo mundo havia já feito e se arrependido no dia seguinte, ainda com o gosto da amargura ou da doçura de seja lá qual ímpeto os arrebatou. Era um lugar de silêncio. Ou pelo menos de melodias pesadas. Era tudo o que eu queria.
Joguei-me contra uma poltrona coletiva larga, enquanto esperava ser servido por alguém, de preferência alguma coisa cara e abrasiva, do tipo que corta, queima e cauteriza ao mesmo tempo, fazendo do corte alguma coisa meramente figurativa. Queria no fundo cortar a mim mesmo fora, e talvez fosse justamente o problema. Um gole era pra lembrar, e o outro pra esquecer de tudo que foi lembrado, mas apenas o diabo sabe do que lembrar-se-á aquele que se aventurar nas profundezas abissais de um copo de destilado forte. Eu não lembrava de nada daquilo que lembrei; acho que era demais saber de tudo que encontrava no fim da garrafa. No fundo, o álcool era como uma espécie de conhecimento puro, algum tipo de onisciência: Quando está na garrafa, ela de tudo sabe e nada diz por nada poder dizer; quando se enche com a bebida, há de tudo se saber, e nada há de lembrar, pois o ser humano não consegue comportar tamanho conhecimento de si e de tudo em volta, e também pelo ser humano ser nada mais do que algo que adia um fim inexorável, o de desfazer-se. Um humano se desfaz aos poucos, enquanto vai perdendo um tico de si a cada respirada que passa... No fundo, essa é a explicação do porquê das pessoas se comportarem como deuses um tanto mimados enquanto bebem de suas garrafas: Porque de fato o são, ainda que por algum período no tempo-espaço. Permitir-se inundar de álcool é como um estado de comunhão, enquanto o eu some e o todo transborda e transparece.
Por isso, eu nunca ousava me julgar após atingir a ebriedade, pois no fundo sabia muito bem que as ações divinas não são compreensíveis perante a esfera mortal; essa, marcada nitidamente pela impossibilidade e cercada de limitações, carcomida pela necessidade masoquista de agradar aos outros com sua flagelação, com sua natureza autofágica e suas doenças auto-imunes, com seus olhos que olham para si mesmos e enxergam a si como uma doença, não é capaz de entender que se permitiu ao tudo.
Ou for fim, era o que eu me dizia, enquanto sorvia um outro gole de bebida, e me preparava a uma viagem sem volta pelas próprias 10 horas....
fim.
Brasília, 15/08/2009, 02:43Am
Arcueid Brunestud, 2:43 AM
quinta-feira, agosto 13, 2009
Eram uma e meia da manhã, e eu, me sentindo como que minha cabeça se afogava no redemoinho da espátula que mexia o gin e o martini, não por estar bêbado já (era o primeiro copo da noite), mas porque poderia dizer que minhas idéias iam aos poucos me inundando e criando uma espécie de entorcimento diferente, no qual eu não sentia nada por sentir algum barulho de fundo estranho na minha cabeça, ao invés da euforia da bebida, tomei a decisão de ir visitar o bar onde aquela menina da cinta-liga trabalhava. Era um pouco tarde, mas a maior parte da clientela eram os insômanos muito mais desligados do mundo da labuta, fosse por orgulho, fosse por privilégio, ou fosse justamente por desemprego, do que qualquer outra coisa, então eu sem dúvida me sentiria em casa. Tratei de pegar a moto e ligá-la rápido. O porteiro não ligava, já estava acostumado a me ver de noite. O porteiro do dia, se me visse saindo do estacionamento, provavelmente chamaria a polícia.
Eram uma e quarenta e cinco quando cheguei. O ambiente era esfumaçado, e algum convidado da noite cantava em cima do piano como uma diva decandente, ainda que com uma camisa social semi desabotoada, e a menina do piano parecesse tocar bem mas desinteressada. O piano lamentava alguma coisa, e uma voz torpe seguia. Restava saber afogado no quê esse aí estava. A música era boa, leve, quase uma manifestação eólica da fumaça que se espalhava ao pouco pelo bar. As luzes parcas incitavam uma penumbra, e o estralo de uma bola de bilhar era seguido pelo clique da aba de metal da caçapa. Eu olhava com uma cara de tédio e segui para um lugar no balcão, procurando algum livro o qual olhar enquanto aguardava meu drink.
Caroline me olhou de longe, e enrolou pra me atender como sempre, pois gostava de se demorar um pouco enquanto ia me servindo alguma coisa. Pra variar eu lia alguma putaria iluminista, e só não arranquei a página do livro pra enrolar um cigarro de palha porque não fumo, embora já tenha feito isso quando estava realmente irritado, e porque eu gostava daquele livro, embora já tenha arrancado páginas de vários outros. Pollyana era uma vítima favorita. Colocaram algumas páginas falsas naquele livro. Havia uma aposta de quando haveriam de arrancar todas elas. De qualquer maneira, eu fiquei em meu lugar, e como era costume, Caroline me pagou uma bebida, meio que esbravejando, dizendo, Se continuar a te ver aqui, acho que logo vou estar pagando pra trabalhar. Eu dei de ombros, disse que se ela gostasse daquilo, que poderia até fazê-lo. Paguei a ela uma bebida e começamos a conversar, enquanto ela tirava um tabuleiro de xadrez da gaveta. Nessa altura do campeonato, o bêbado do piano já errava a maioria das notas e a moça da partitura já havia ligado o piano automático, e dormia a generosos roncos, dignos de um verdadeiro ogro, pruma moça tão magra, embaixo do piano. Começava a fazer festa esperando que ele decidisse parar de cantar. Caroline e eu conversávamos.
Naquela noite, falamos um pouco sobre identidade. Entre um drink e outro, ela servia algum bêbado qualquer que não conseguisse mais chegar no balcão, ou que não fosse confiável o bastante para marcar a própria bebida. Os que não chegavam ao balcão se amontoavam como crianças num sofá, e os segundos eram raros e logo expulsos, o que dava para nós dois bastante tempo. Caroline abriu com a siciliana, e eu comecei tirando os dois cavalos. Mas o que tem a identidade, ela disse... Eu falei que tinha tudo haver com o jardim de Pardis. O quê? Xeque, ela disse. Porra, Line, jogar esse bispo aí é besteira, você tá só pedindo pra que perde-lô a troco de um peão, Ah, foda-se, eu quero mesmo é cantar hoje, e responde minha pergunta. Bispo no saco, ela faz uma cara de esperta, e eu respondo, Bom, acho que tudo começa naquela parte onde uma pessoa se torna separada do todo de si, das percepções, Não, caralho, o jardim de Pardis, pára de beber e fala, vai... Ok, ok, o jardim de Pardis... Bom, a palavra paraíso tem origem nessa, Hm, é persa, e era um Jardim, e era daí que saiam as imagens de paraíso, Ahhh, tá... Então você acha que paraíso é a unidade de si? É, por aí, Xeque, Hehehehe, acho que você perdeu essa rainha, Ahn, como assi, ah, ok, mas eu acho que alguma coisa fratura a pessoa quando ela começa a desenvolver personalidade, e a personalidade na verdade é a tentativa dela de lidar com as pressões de lidar com a dor original disso... Hmmmm... como tentar lidar com as pressões de querer acabar com a própria dor e ter que lidar com ela? Bom, acho que resumidamente é isso, ops, você jogou aí mesmo? Joguei, e pára de encher e joga, Bom, é por aí, eu acho, a personalidade nada mais é que um construto baseado da dilaceração entre o todo pessoal e o resultado das demais forças presentes no mundo, ei, que cê tá fazendo, ah, esquece o jogo, vai, vem dançar comigo, essa é uma boa conclusão, Heheheheheh...
Ficamos dançando um pouco. Tocava música lenta, e nós dois, bêbados como estávamos, parecíamos um disco em tempo trocado, o acompanhamento lento e duas pessoas dançando como loucas uma música que lá não havia. Alguns dos bêbados se animavam e bebiam alguma coisa por conta da casa, dando alguns brados de alegria, outros se atreviam a dançar com a própria gravidade e o movimento do transladar, algumas pessoas caiam em pares, alguns se divertiam como davam... A alegria parecia mórbida, considerando o clima pesado.
A música mudava, seja para mim, ou fosse para Line, e fiçavamos dançando um caído em cima do outro, como que só de pé se sustentando. Ela falou para eu cair para frente que ela faria o mesmo, e milagrosamente o arranjo funcionava. Eu perguntei, com a voz aos tropeços... Line... Qual foi a sua primeira dor...? A minha, ela disse, mais arrastadamente ainda... Acho que a minha foi a de não ser vista... Ah, eu respondi, acho que te entendo. A minha foi a de não poder tocar em algo... Tudo bem, vai... Toca aqui... E ela me deu um seio a apalpar. Eu fiquei um pouco corado, e olhei pra ela com uma cara esquisita... Ela me olhou com um olhar de sapeca, e disse, aproveita enquanto pode, amanhã não vou gostar disso... Eu disse pra ela que nem eu, e fiz carinho entre os dois montes... Ela me olhou cabisbaixa e disse... Por que certos homens insistem em serem legais quando até nós não passamos de porcas...? Eu respondi com uma expressão amarga, dizendo, Vai ver é porque você é uma porca mesmo que eu sou legal... E continuamos a marcar o compasso de uma música lenta, meio que sorvidos num mar de luz azul estroboscópica, um para cá e outro para cá, outro para lá e um para cá...
Acordei eram 10 da manhã, e Caroline já havia ido embora... O sofá parecia limpo, o que sem dúvida significava que a chave do bar estava no meu bolso. A camisa suja de vômito não deixava muitos indícios quanto a quem fez o quê. Fui ao balcão, e achei a minha conta da noite paga. Sifû, a mocréia podia ao menos me deixar pagar de vez em quando. Tomei um drink por minha conta, deixei o dinheiro no copo, ao lado da garrafa, bebi um pouco de água da pia, pra ver se aliava a ressaca. No caminho de volta, deixaria a chave num envolope dentro da caixa de correio de Line. Fiz um movimento no tabuleiro, e rezei para dessa vez terminarmos o jogo antes de quatro sessões, e tratei de ir pra casa, conhecer a cara do porteiro do dia...
Brasília, 13/08/2009, 05:54Am
Arcueid Brunestud, 5:54 AM
terça-feira, agosto 11, 2009
E era como que algo que vagava ao contrário no fluxo da corrente sangüínea, pois a cada passo que dava e a cada lhufada de ar que sorvia, sentia como que alguma coisa corresse em mim contra a vida, no sentido oposto de mim mesmo, que talvez invadisse e que talvez, aos poucos, me tomasse. Com o passar do tempo, sentia que aos poucos alguma coisa em mim ia parando, a vida se extingüindo lentamente conforme o movimento inverso daquele dela ia ganhando mais força, até o ponto em que o sangue estagnava nas veios e o coração parava, lentamento tornando-se num mero objeto de relicário, uma lembrança dos dias passados. A pele logo tomava um aspecto pétreo, como que um antigo vale onde alguém ou alguma coisa se abrigou do inverno buscando pelos jardins de Pardis, e no fundo, apenas encontrou o resfriar típico da vida, que começa quente e aos poucos vai se perdendo aos confortos hibernais do não estar, na algidez dos dias frios que aos poucos foram tomando conta da terra. Nos olhos, duas límpidas lagoas de outrora aos poucos estagnavam e tomavam dolorosos aspectos de pântanos, como que gritando que ali alguma coisa parada e fincada maculava tudo em volta, a putrefação o único caminho viável à vida que foi perdendo seu ritmo.
Um dia, como que por milagre, algo rompeu a tensão superficial da então nada delicada camada daquele espelho, que refletia muito bem a imagem na qual fora mirado. Como que o óleo que apodrece as águas do trânsito cotidiano, formou-se aquarela, e da tinta escorrendo por entre os vincos da íris, talvez ele tivesse notado que havia ainda algo dentro de si... Talvez, não digo belo, mas ao menos sincero, e eis que deixou-se levar pela contra-corrente, não mais lutando para nadar para lado algum, mas apenas se entregando àquilo que dentro de si sentia... E aos poucos, o corpo em redemoinho recolheu-se a aconchegou-se, deixando-se levar e escorrer, resvalar, de volta à posição em que viera ao mundo, ligado a sua origem no ponto em que o líquido amniótico tinha gosto de sangue... Hoje também nascia, mas de dentro para fora, num corpo já em si preso, afogado em tudo que sentira até aquele momento. Por fim... Deixou-se abater.
Se aquele mundo fosse o fim de guerra, ele sem dúvida se via como que o mero soldado que se entrega plenamente aos ferimentos e cai, como se no fundo a morte fosse uma benção. Passou-se uma mão sobre seus braços, sobre seu tronco, fronte e cabelos, como que se dando conta ainda da integridade física, que caçoava da auto-imagem distorcida de um homem mutilado. Por fim, deu-se a morte daquele corpo, para que com, amparado nas possibilidades de um futuro que ainda não veio, simplesmente pudesse renascer. E aos poucos, o titubear do frenesi do coração disparado cessava, achando conforto no mero repousar. Deixava de fazer esforço, os capilares e veias se rompendo, como que a integridade incomodasse ao corpo que de hora em hora requeria algo, que de segundo em segundo inspirava e batia as palpebras como que buscando elevação da carne de um plano terreno. Morreu desfeito, esfacelou-se em mil pedaços e se transbordando pelo chão, mas plenamente feliz. A quem lhe segurava, sobraram-se as manchas de sangue, que a pessoa se perguntou se manchariam sua roupa, ou não...
Brasília, 11/08/2009, 04:46Am
Arcueid Brunestud, 4:46 AM
quinta-feira, novembro 13, 2008
Brasília, NDA Asa Norte, 28/10/2003 09:12Am
1a Revisão: Brasília, 02/11/2003 02:04Pm
2a Revisão: Brasília, 14/03/2004 11:43Pm
3a Revisão: Brasília, 18/03/2003 01:24Am
4a Revisão e Final: Brasília, 25/05/2007, 04:35Pm, aproximadamente
5a Revisão: Brasília, 13/11/2008, 01:09Am
Sim, era tarde. A queda da noite trazia consigo algum descanso, a possibilidade de abaixar a guarda. Apenas gostaria que o trânsito andasse mais rápido... Aqueles sufocantes momentos que antecediam sua chegada sempre eram envoltos por uma ansiedade palpável, que ia correndo por cada um daqueles pontos da incandescente tapeçaria que se extendia ao horizonte. Se sentia cansado... A noite parecia quase que pesada sobre seus ombros e olhos, como se uma densa fumaça marrom se espalhasse toda a noite nesse horário, deixando a todos grogues, anestesiados por algum imenso peso que tornava a todos uma espécie de Atlas, suportando o insustentável peso de seus mundos naquelas gaiolas sobre quatro rodas... A solidão lhe açoitava, e ele tentava se retirar de suas sensações olhando a sua volta... Percebia que quase todos os carros tinham apenas um ocupante. Homens e mulheres, alguns em caros carros importados, outros em carros populares, já outros tantos nos claustrofóbicos amontoados de gente do transporte público. Alguns poucos levavam os filhos, e até mesmo algumas famílias inteiras ocupavam os assentos de uns poucos automóveis, mas a regra geral eram espaços internos vazios, com excessão do banco do motorista. Em alguns casos, daqueles carros, se notava algo que muito lhe doia... Algumas pessoas pareciam que voltavam para alguém. Sim, se sentia terrivelmente sozinho. O que está tocando na rádio mesmo...?
Após 30 minutos, se ocupava de manobrar o carro na estéril garagem subterrânea de seu prédio. Os tons de concreto se associavam ao branco artificial da tinta de parede para produzir um cenário completamente morto, coberto de nostalgias esquecidas e memórias empoeiradas de tantas pessoas... Mas é só uma garagem... A vaga era ocupada pelo carro preto, o barulho da ventoinha de refrigeração ocupando toda sua percepção em instantes, como um general infalível e suas tropas incansáveis. Ficava a delongar sua existência, no ritmo e na melodia do silêncio, como se o compasso nulo ditasse aquele olhar vago e vagante perdido no nada, enquanto calmamente o cansaço consolidasse seu domínio, e uma esmagadora vontade de continuar naquela letargia debatia a paralização sindical daquele corpo... Mas que causa advogavam? Nem ele sabia... Que vontade de não fazer nada... Preguiça, preguiça, e nem sabia de onde vinham todas aquelas vozes tentando-lhe com promessas de que o descanso seria-lhe um conforto imensurável, e lhe escapava da compreensão o porquê de tanto desejar aquilo. Lutava e degladiava-se contra aquela vontade de simplesmente abaixar a cabeça ao volante e entregar-se ao próprio silêncio, mesclando-se àquela acolhedora quietude, embora sequer entendesse de onde vinha tal vontade... Mexa-se, rapaz, antes que você durma aqui mesmo... E mexeu-se.
O rangido da porta ia aos poucos silenciando conforme seu lento movimento cessava, e a parca luz prateada do luar entrava pela janela para revelar por entre a escuridão os contornos de uma sala de estar muitíssimo bem mobilhada e adornada por uma exuberante decoração. Ficava lá, parado, observando sua própria casa, banhada naquele brilho argenteado como se jamais a houvesse visto. Sorria. Lar doce lar. Com um brilho triste de um melancólico conforto lhe adornando o olhar, a luz da lua refletiu-se em seus olhos conforme adentrava aquela moradia, e seus agora descalços pés brincavam com aquela bela camada de poeira lunar no chão, enquanto deixava novas pegadas naquele carpete. Sorria. Lar doce lar.
Checava a secretária eletrônica e o bina, mais por hábito do que por esperança. Nada, como sempre... Tudo bem. Nem sempre as pessoas podem ligar mesmo... Ia à cozinha, e o hipnótico barulho da violenta fuga do vapor anunciava que a janta estaria pronta em breve. Tratava de arrumar a mesa, cuidadosamente extendendo a toalha de maneira simétrica e arrumando os pratos de forma cuidadosa, quase como se tentasse cuidar de algo que ele mesmo sabia que não existia, embora não conseguisse deixar agir daquela forma dedicada e carinhosa. Notava enfim seu lugar à ponta da mesa, e todos os lugares vazios a sua volta. O suspiro foi acompanhado por um sorriso conformado. Não entedia porque sentia tanta saudade daquilo que nunca teve... Fechava os olhos, como para que se esconder de si mesmo em meio a sua impotência perante aquela sensação, quando lembrou-se da janta. Correndo, foi a cozinha e tirou as panelas do fogo. Entregou-se completamente ao ofício da culinária, e indiscutivelmente possuia grandes habilidades no preparo de quitutes mil, e pratos simples em suas mãos se tornavam iguarias sem igual. Temperava, preparava, cortava, transformava o alimento em obra de arte e mosaico ornamentado pelas mais diversas formas e padrões, e seguia em seu deleite contínuo ao cozinhar diversos pratos. O tempo mal se opunha àquele exercício lúdico, e as horas que tantas vezes perdiam-se por entre os segundos voltavam a dançar, extendendo aquelas mínimas parcelas de tempo em pequenas eternidades. Então, de alegre e descontraida maneira, servia aquela imensa mesa que se extendia ao infinito a todos os recém-chegados no salão festas, que levantavam-se e brindavam com suas grandes canecas de cerveja preta, cantavam e dançavam em meio a animada música, enquanto ele deixava-se levar de maneira irrepreensível pelo clima de festa, cantarolando e dançando. Enfim, um brinde foi proposto a todos, e em meio à luz das velas que iluminavam o enorme saguão, todos os seus nobres convidados levantaram-se, suas belas capas a dançar contra o vento ao som da música contagiante dos alaudes dos menestreis, e então todos os fantasmas brindaram em seu nome...
O luar iluminava seu corpo, inclinado sobre a mesa. Apenas a respiração marcada registrava o ânimo ali presente, e como respirava com força, ofegante, o sangue lhe circulando como fogo a rodopiar numa ventania, queimando-lhe as veias e lhe gritando a vida. A lenta lágrima que lhe percorria o rosto reluzia à luz das estrelas, e desprovida de pressa, descia, aos poucos acariciando-lhe a fronte, chegando lentamente a sua boca, e anunciva afavelmente o mundo a sua volta. Abria os olhos então, já sabendo de tudo o que houvera. Observava a sua volta aquela existência tão desprovida de sentido, que se ostentava meramente pelo costume de o fazer, e suspirava, arrebatado. Olhava as panelas, agora frias, o metal refletindo as luzes alvas dos postes. Tentava tomar o controle daquele corpo abatido e daquela alma, suas sensações, de tão intensas, dando-lhe a impressão de que se condensavam e tornavam-se visíveis em sua respiração. Suspirou mais uma vez, como se para exorcizá-las de uma vez por todas, e levantou, por fim. Olhou o relógio de parede... 3:25 da manhã... Droga. Algo me diz que vou ter que esquentar minha janta...
Comeu, e comeu até fartar-se. A janta havia perdido um pouco de seu sabor, mas não era problema, até por que havia comido já fazia mais de uma hora... Seu problema agora era a falta de sono, característica desses dias, para ele. Rolava pela cama, rolava a bonbordo e a estibordo, o trepidar daquela náu imaginária apenas lhe atiçando a consciência ainda mais, enquanto a tempestade de pensamentos lhe flagelava, a corrente destes incapaz de atingir alguma calma, assolada pelo tédio e pela agonia da ausência de alguma saída e fuga de si mesmo. Chega, eu vou é ver televisão...
Reclinado na poltrona, se deixava ir levando por aquela torrente incansável de imagens e sons. Roteiros e atores iam preenchendo sua consciência, que na falta do torpor do sono, pelo menos podia se retirar de si mesma por meio de uma atividade tão mecânica que não apenas dispensava sua presença, mas parecia suplantá-la quase que por inteiro. O tempo fluia, as areias do tempo escorrendo por entre sua mente... Ficava olhando em falso aquelas imagens, usando-as como um ponto de fuga onde podia se esconder além do plano da consciência. Perdia-se naquelas fotos que insistiam em se alternar num ritmo ameno, enquanto os canais iam se alternando conforme o bel-prazer da mão que segurava o controle remoto. Sim, agora ia, se perdia mundo afora por sua visão, deixando-se ir ao Egito, e voltando a mesopotâmea, visitando o jurássico e reencontrando antigos amores que nunca havia conhecido, mas ainda assim tornavam-se palpáveis em meio a todo o furor do retorno de seu batalhão após a guerra contra os nazistas. O dia de apostas em Monte Carlo foi um sucesso, e agora tornara-se o mais novo milionário da cidade, porém, tinha de lembrar-se de não chamar tanta atenção, pois os russos poderiam a qualquer momento notá-lo finalmente como um espião do mundo capitalista. Pensava em sua vida... Olhava em retrospectiva, e notava que se havia uma coisa naquele momento, era que nada que vivia parecia fazer o menor sentido. E enquanto os cinco oscilavam entre a consciência e o delírio sonâmbulo, o homem do tempo e suas previsões faziam cócegas e a vontade de rir lhe pegou de surpresa, desprovida de um motivo para si... Mas isso não fazia o menor sentido, e sem dúvida as risadas tornaram-se cada vez maiores, tomando-lhe por refém, que for fim se deixava levar por elas. Realmente, não fazia o menor sentido, e isso apenas lhe fazia soltar gargalhadas cada vez maiores, gargalhadas que já não sabia distinguir se eram risadas ou um choro... E é verdade, não faz o menor sentido... Huiaheuihaiheahuiehuiaheiaheihaeuihaheiaheuiaheuiaehiaheiuaheiuaehauieeehaiehiauehiuah...
Brasília, NDA Asa Norte, 28/10/2003 12:34PM
1a Revisão: Brasília, 02/11/2003, 05:47PM
2a Revisão: Brasília, 14/03/2004, 11:58PM
3a Revisão: Brasília, 18/03/2004, 01:42AM
4a Revisão e Final: Brasília, 25/05/2007, 05:20Pm
5a Revisão: Brasília, 13/11/2008, 01:21Am
Conto baseado na música "Satellite", Dave Matthews Band.
Arcueid Brunestud, 1:24 AM
sexta-feira, novembro 07, 2008
E no caminho, haviam rosas, cujas pétalas murchas adornavam ao chão. Sentia-me como alguém que havia plantado algo, sentia-me como alguém que havia semeado cravos e agora colhia sangue, corte, arranhão e perfuração. Mas seriam os confis da pele a serem invadidos, a fortaleza impenetrável do si devassada e o milagre da comunhão a se dar em minha carne? Não, era a aspereza de uma pele que se fechava sob mim, como uma camada ríspida de algum tecido feito de farpas, cada poro feito de pixe, mais fechando do que se abrindo a respirar. Eu roubava o ar à minha volta; e não me embanhava nele.
Assim como roubava presenças... Buscava nesse furto meu sequestro, como que a donzela apaixonada em fuga junto a seu salvador, correndo escadas espirais e fugindo de sua verduga sua sombra, desesperadamente pulando do topo de uma torre acima das nuvens rumo ao colchão dos céus e rumo ao consolo de sublimar-se de si própria nas rochas, apenas para estatelar-se ao chão e descobrir que apenas caiu, de volta em si mesma... E a dor era tanta quanta...
A verdade é que não gostava de si mesma, e por isso se via fugindo... Como os seres amorfos que percorrem a terra a perder a forma, queria ela também deixar de ser ela, aquele emaranhado de espinhos que se sentia e cuja seiva atirada ao chão apenas semeava outras camadas de dores vindouras, ainda a nascer mas já sentidas no novelo de gato que se espalhava e se amarrava, grilhões que a prendiam e sufocavam, prendendo-na no ato de ser mas sem possibilidades de se libertar do próprio fardo, como se a pele atirasse seus tendões sobre a carne e a sufocasse. E dentro, esse esqueleto preso, movido e amarrado nas cordas que o sufocam, apenas mera marionete desta mão inquieta chamada dor...
Sim... A vida lhe era pesada, embora vivendo fosse possível doer mais e menos. Nessas horas, queria ser levada pela mão para longe dessa pessoa com quem se viu todo dia, um si dolorido que esperava um resgate para longe dele próprio... Me deixa ser você, ainda que por meio de mim... Por favor, alguém rasgue minha pele...
...e me tire daqui...
Brasília, 07/11/2008, 08:58Pm
- S...
Arcueid Brunestud, 8:58 PM
sábado, outubro 20, 2007
Joana Quando deixava de ser dia, e Joana sentava à tela do computador, Joana deixava de ser gente e virava letras. De fato, talvez nunca fosse gente, mas letras travestidas. A imensa torrente de sentimentos puros que lhe circulavam a mente, ia, aos poucos, tomando alguma forma, ainda que completamente inconsciente de tudo que se passava ao seu redor e até mesmo do que se passava dentro daquela abóboda negra que não permitia que nada a invadisse, mas sim que invadia aos dias incessante, incansável e implacável, sem entender como de fato aquele ser existia. Nem se existia ou o que era. Apenas... Fluia, por horas, sem controle, como a vida que às vezes escorria, não concretizada, de dentro de seu ventre. Joana era assim. Uma vida que não vingou a não ser em um triste fluido escarlate e transparente...
E assim Joana passava seus dias incauta, branca e pálida como a lua, como que sem entender e por quê vivia ou morria, e lhe restavam os expurgos de uma vida potencial que jamais vinha a realmente ser. Os dias não corriam por ela, mas sim ela escorria pelos dias, de morna a cálida a tíbia, sempre tentando esconder ou entender. Joana era do tipo que observava às pessoas, do tipo que tentava lembrar da primeira memória que delas tinha, mas de fato não conseguia, não lembrava, via sempre as pessoas por um estranho olhar de familiaridade, como se eternamente lá tivessem estado, e isto soasse tão natural quando de fato não fosse, que achava que talvez as visse de antes, de outrora, de antes de que aqueles cílios pela primeira vez se encontrassem. Ou que por primeiro se separassem na ferida dos olhos, e só sobrasse a dor do talho que o mundo lhe fazia; os olhos eram uma mácula eterna. E ela, ao contrário dos outros, sabia que todo o resto era falso, os olhos sim é que verdadeiramente sangravam, o sangue não era branco nem vermelho, mas sim transparente e incolor, como uma essência desnítida que não dá tanto de si mesma fora a forma, com cor invisível e um tanto moldada, e é como a alma, cujo sangue tem a cor daquilo que vê, por onde resvala. A lágrima sim era o verdadeiro sangue, a lágrima sim era o sangue da alma. E no meio de suas feridas abertas, sempre embebidas nesse sangue melancólico e discreto (sim, nos olhos de todo mundo brilhava, incrível, o perene refulgir do sangue), Joana tentava se lembrar de onde vieram as pessoas, de onde vinham e como e por quê estavam, mas sem sucesso, apenas as aceitava, com seus brilhos escarlates translúcidos. Às vezes pensava que talvez apenas tenha esquecido o medo de as ver pela primeira vez junto com o medo de se ver naquela forma coesa e junta, dentro de um estranho saco de plástico impermeável de sensações, e às vezes pensava não que tivesse ali sempre existido, mas sim que não tenha sido e só não conseguisse lembrar, e assim como não lembrava nem achava a origem de tudo, seria apenas lógico se às vezes, tudo lhe deixasse, tudo lhe sumisse, tudo se desencaixasse, tudo deixasse de ser assim como nunca fora... O novelo embolado do nada deixasse de ser embaraçado e voltasse a ser linha reta, esticada mas não tensa, como que se os dias calmos de que lembrasse no fundo não existissem nem jamais no passado, irão existir... E tudo talvez voltasse a ser igual a nada... Tal como no fundo, Joana achava que realmente era...
E assim passava Joana pelos dias, incauta e insegura, vendo os dias sempre como que a qualquer minuto seu passo fosse o último que viesse a dar, por pisar estranho num nó que ninguém vira, e tudo se desmanchasse, ou que alguém o fizesse com ela. Era como Joana via a si mesma, como um imenso embolado de fios de lã que tentava por si passar um pente fino, como que para esticar cada fibra e ver realmente de dentro para fora o que de fato era, ainda que soubesse que talvez isso fosse seu fim ou o fim de todo o mundo, pois Joana se via como um nó e um embolado enquanto aos outros não. No fundo, porém, achava que tudo que era eram esses fios cruzados, e que se fossem devidamente estirados, quem sabe aquela imensa confusão que era deixasse de ser... Pois no fundo, Joana achava-se um mundo confuso, e pensava que talvez essa confusão fosse tudo que o mundo representasse e fosse, pois se algum dia o pensamento se desatasse, talvez perdesse o fio da meada. E então, deixaria ela de pensar constantemente, pensaria vagamente, com o pensamento permeado de momentos de silêncio, e só quando solicitada. Isso lhe assustava, talvez mais do que nunca realmente se desembolar ao seu fundo, e talvez em essência já contemplasse esse silêncio e talvez até mesmo já o houvesse atingido por vez ou outra, mas tinha medo da claridade, pois nela e longe do escuro não via o tilintar impreciso de todas as coisas, nem precisava que lhe enfiassem um estilete na alma por meio das rachaduras que tinha em volta e no meio da íris... E apenas ficava calada, enxergando aos poucos aos fios misteriosos daquele mundo de fios emaranhados, flertando e tentando um tango com a efetiva morte...
Às vezes, o trabalho lhe interrompia, ou ela interrompia ao trabalho... Ou às vezes as poucas paixões e amigos de verdade lhe tiravam de sua auto-vivissecação... E quando tirava o estilete da carne, agora com suas fibras separadas, tinha vontade de ser morte a quem interrompia ao seu apoteótico e demiúrgico ímpeto de criar a si mesma, mas comia sua ânsia por dar valor demais àqueles à sua volta. Nunca se perdoaria se algo os acontecesse, partindo de si. Mas queria, só um pouco, às vezes, que soubessem de sua injusta raiva, e que talvez cuidassem dela em seu indevido e imerecido desejo de mimo...
O trabalho era diferente, porém... Joana era silêncio perene, como que fosse um mundo pequeno a tentar se endireitar, e o trabalho lhe doia, lhe interrompia. Não achava-o justo, não achava-o sacro. Era como que uma pequena outra dobra em toda sua trama, e aqueles fios tortos nunca mais se endireitavam, não sem muito esforço, e sabia que o si não era o agora, mas sim um imenso somatório de todo antes. Era como se olhasse no espelho e achasse estranho, pois não entendia como os outros se vissem como aquilo, como apenas um ponto ou o último fio da meada, não enxergavam todo o resto, não viam o mundo como um todo, eram como seres mutilados e Joana então batia as asas dos olhos, e voltava ao passado, e via no espelho a pele mortificada de sua trama pequena, perpassada por flechas, escudos, lanças e penas, encrustada como uma linda jóia com milhões de adagas, e Joana gritava, gritava do fundo da alma e até do sopro do coração, mas o grito morria calado em sua miúda garganta, e ficava paralisada, na frente do espelho, tentando esconder as feridas nas dobras das pequenas mãos, como que em estado de choque, mas não conseguia, e ficava parada de olhos abertos, incapaz de mover um músculo, e o salgado doce sangue translúcido escorria aos poucos dos rombos de suas feridas...
Joana não era gente, era uma máquina, como um fino relógio suíço de corda, dos que não eram a pilha. Era uma pessoa como há muito não se faziam mais pessoas, era uma pequena grande reminiscência, dos dias que ainda se fazia gente e não máquina, e era cheia desses mecanismoszinhos pequenos, cheios de molas e espirais de corda, e se atrasava, parava, às vezes dava grandes defeitos e sufocava, engasgando nos dentes quebrados de suas engrenagens delgadas e no óleo que lhes ajudava a fluir. Passava dias no ócio, calada e sem dizer nada, ao contrário dos tantos que calam e ainda falam pelos cotovelos, e deixava os ponteiros pararem, deixava o tempo lhe fincar adagas e cravos, enquanto não batia suas asas e caia fora de sua cadência, e lentamente via na força de suas frágeis engrenagens estas se estalando e mastigando e por fim quebrando, como um mecanismo que estoura por ser como rio e panela de pressão, e em suas voltas paradas não ter mais para onde ir. E Joana ficava nos fundos do quarto cinza e frio, desnuda com excessão de uma camisa social de malha cinza, que lhe cobria ao fino corpo, deixando os tênues seios como nuâncias de provas do relevo macio de seu pequeno ser, e deixava os olhos abertos no escuro, sentindo à máquina emperrada lhe queimando no fundo da alma, e se deixava, aos poucos, sangrar...
...como uma vida que nunca era... Como uma vida em potencial, que atingido o ápice da lua cheia e o prenhe estrondo da orquestra, retornava a em silêncio no céu minguar. Enquanto Joana abraçava suas pernas, delas no chão, corria o vermelho...
Joana, muito embora menos gente do que um fino mecanismo, contrariando a todas as expectativas, um dia se apaixonou. E achava aquela sensação engraçada, achava aqueles calores e calmas coisas estranhas, uma hora gelava outrora queimava, e Joana, que era o silêncio, às vezes tinha vontade de gritar. Às vezes de desespero, outras vezes de desejo, às vezes por coisa alguma, e até para o seu medo, de felicidade, como se o bater das asas dos olhos (onde estavam as bases de suas feridas, onde o deus que não existia a rasgou ao ser nascida, como se o parto não terminasse antes de um pequeno e atroz assassinato), às vezes, realmente a fizesse voar por campos de rosas, laranjas claros, singelos lilases, discretos vermelhos e tímidos amarelos, doces em cor e mornos em intensidade, na predominância de pueris lilases e rosas e laranjas plásticos, que quase flutuavam e por onde Joana transcorria e transbordava, meio que num êxtase desconhecido ou esquecido, flutuando, flutuando, um voar que não interessava quantas vezes vivesse, jamais dele lembrava. Joana sabia que sua vida era inquieta, pois queria na verdade achar a essência da fonte da dor, a própria nascente de onde as lágrimas e o sangue da alma resvalavam, e para isso teria de seguir a vida no rebuliço mecânico de quem sentia suas engrenagens emperrando, mas mesmo assim achava estranho, pois não era mais a única engrenagem a em seu peito e maquinário preciso rodar. Às vezes tinha vontade até de dissolver o ferro em carne, e quem sabe, mesmo sem saber de tudo, virar rio, e bem sabia que os rios correm para o mar. Não sabia onde ou o quê o mar era, mas pensava em correr com alguém...
E Joana tentava aos poucos compreender como suas delicadas, finas, garbosas e elegantes, porém frágeis e quebradiças engrenagens, espirais e molas de seu mecanismo, seriam se corressem acompanhadas. Naqueles dias, Joana, que insatisfeita queria saber, conhecer e controlar a tudo, olhava o mundo com olhos desnudos e incautos, e ficava perplexa com o tamanho do seu não-conhecer... E mesmo sem suas manias, tentava, aos poucos, deixar de ser máquina e apenas... Respirar. E inspirava... E exalava... E às vezes achava que não tinha controle sobre o ar. E ficava espantada.
Joana aos poucos sentia-se receosa, perdida nas voltas de sua máquina. E lembrava que assim como o tudo viera do nada, talvez, por nenhum motivo aparente, aquele sentimento torturante e gostoso pudesse para o nada voltar. E nesses dias laranjas de fim de tarde, pela rua vazia, botava, silenciosamente, a mão no peito e a prensava contra aquela ferida, por detrás do dorso, a ferida que já nasce feita e é por isso que lá há osso, para prevenir o toque, o cutucar, e tentava consolar aquela dor no seu peito, de cores receosas querendo misturar-se. Nesses dias, Joana, que bem sabia de tudo, tinha medo de pensar...
Dedicado a srta. Naiara, pela inspiração, colo e conversa. Nossas cores misturar-se-ão.
Brasília, 23/05/2007, 03:09Am
1a Revisão: Brasília, 23/05/2007, 09:15Am
2a Revisão: Brasília, 23/05/2007, 06:26Pm
3a Revisão: Brasília, 23/05/2007, 07:14Pm
4a Revisão: Brasília, 23/05/2007, 07:49Pm
5a Revisão: Brasília, 24/05/2007, 06:22Am
6a Revisão: Brasília, 24/05/2007, 05:56Pm
7a Revisão: Brasília, 25/05/2007, 01:02Pm
8a Revisão: Brasília, 30/05/2007, 07:30Pm
Arcueid Brunestud, 10:32 PM
quinta-feira, maio 24, 2007
À noite, sempre na mesma mesa, sentava o velho viúvo e a cortesã de sua preferência para a noite. Lá, eles sentavam, degustavam algumas bebidas da escolha e preferência de ambos, antes de enfim se retirem para aposentos onde pudessem ficar mais à vontade, e se indulgirem em alguma volúpia privada, a delas sempre referente ao tato extasiado com a generosidade bem conhecida daquele homem, e a dele a de saber que traia sua amada esposa. Ao cantar do galo, sentava-se ele à sua mesa, acompanhado apenas de um ou outro olhar inquisitivo e embebido em moralismo e da ressaca de seus deboches, que pareciam mais pesar a ele do que se tivesse consumido todo o vinho de uma adega. Eu sempre olhava aquele homem com uma curiosidade e admiração velada, enquanto enxugava os últimos copos das doses servidas, entre elas invariavelmente umas duas de whisky que ele bebia. As prostitutas loiras do bordel de meu pai sempre atraiam ao velho estrangeiro, de cabelos rubros e tristes olhos azuis que se enegreciam toda manhã em seu luto e luta para jamais esquecer a mulher. Seus olhos azuis eram negros, como se entoassem uma eterna nênia à falecida consorte, e como se estivessem mortificados e amortalhados, num traje fúnebre de eterna homenagem e blasfêmia ao ser que amou. A ela ofendia por sempre se culpar por ter sobrevivido ao acidente no barco, eu imaginava, e por desejar que ela tornasse-se sua eterna verduga em algum dos confins do inferno, talvez merecendo atenções de Cérbero.
Ele sempre pedia às prostitutas a quem pagava para chamá-las de Adala. Eu admirava sua determinação em ser fiel em toda sua malícia, traição e tortura. E sempre me culpava, por ter nascido morena...
Brasília, 20/10/2006, hora desconhecida
Arcueid Brunestud, 8:46 AM
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